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sexta-feira, 18 de março de 2011

O ‘Outro Deus’ do Teísmo Aberto

O recente tsunami no Japão mais uma vez levantou a questão: onde estava Deus na hora da tragédia? Essa pergunta ecoa todas as vezes em que tragédias ocorrem. Se estoura uma guerra, “onde estava Deus que não a impediu?”. Se barrancos desabam sobre as casas, “por que Deus permitiu tal coisa?”. Se um terremoto devasta uma região ou até um país, “como pode um Deus bom existir se coisas ruins acontecem?”.

A questão é antiga. O profeta Habacuque se viu diante desse dilema. Os israelitas estavam sob o prenunciado juízo de Deus. O Senhor, que durante séculos avisou, repreendeu e aguardou com paciência pelo arrependimento do povo, finalmente enviou a eles a devida consequência do seu pecado. Entretanto, o fez pelas mãos de um povo cruel que agiu com injustiça. Assim eles são descritos: “Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa [...] Eles são pavorosos e terríveis, e criam eles mesmos o seu direito e a sua dignidade” (Hc 1.6,7). Se essa descrição não deixa claro que o “direito” e a “dignidade” que os babilônicos criavam eram bem “questionáveis”, o v.9 arremata a questão afirmando: “Eles todos vêm para fazer violência”. Diante disso, a pergunta de Habacuque a Deus soa de maneira muito natural aos olhos humanos: “Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar; por que, pois, toleras os que procedem perfidamente e te calas quando o perverso devora aquele que é mais justo do que ele?” (Hc 1.13).

O medo de Habacuque, ao que parece, era notar que Deus não era tão amoroso ou justo como ele sabia ser. Era um “nó” que não se desatava na mente do profeta. Era a tensão entre aquilo que ele cria e aquilo que ele via. E ele não foi o único a questionar o Senhor diante do sofrimento. Jó, muito tempo antes, ao sofrer com os ataques de satanás que lhe custaram os bens, os filhos e, finalmente, a saúde, também se viu diante do mesmo dilema.. Discordando da ideia de que sua calamidade seria uma punição, diz Jó a Deus: “Tens tu olhos de carne? Acaso, vês tu como vê o homem? São os teus dias como os dias do mortal? Ou são os teus anos como os anos de um homem, para te informares da minha iniquidade e averiguares o meu pecado? Bem sabes tu que eu não sou culpado; todavia, ninguém há que me livre da tua mão” (Jó 10.4-7). O receio de Jó é sofrer um tratamento da parte de Deus sob critérios imperfeitos comuns nos homens e não em um Deus sábio e justo.

Essa “aparente” injustiça e falta de amor sempre exigiu uma resposta e os servos do Senhor sempre se esmeraram em oferecê-la de modo a preservar a perfeição, a santidade e a bondade do Senhor como descritas nas Escrituras.. Esse tipo de defesa recebe o nome de teodiceia.. Muitos foram os homens que se renderam a isso. Como, com o passar do tempo, as tragédias não deixaram de existir, ainda hoje há pessoas que tratam a questão e defendem que, mesmo diante das maiores catástrofes, o Senhor eterno é Deus santo e bom. Contudo, nos últimos tempos, alguns autonomeados “advogados” do Senhor criaram um tipo de defesa “às avessas”. Em lugar de afirmarem, como os defensores do passado, que, ainda que Deus tome decisões duras, elas fazem parte de um plano bom daquele que é perfeito e soberano, tais rábulas dizem que Deus não é culpado pelas tragédias simplesmente porque “nada teve a ver com elas”.. Dizem que ele não as orquestrou e que nem sequer sabia que aconteceriam.. Defendem que, caso soubesse, certamente as evitaria. Para eles, somente assim agiria um Deus que é bom e amoroso.. Esse tipo de argumentação recebeu o nome, no meio teológico e eclesiástico, de “teísmo aberto”.

Apesar de o teísmo aberto ter a intenção de defender a bondade de Deus diante do problema do mal e do sofrimento do homem, sua extrema ingenuidade teológica ataca tantos pilares da sã doutrina que não sobra sequer um barraco daquilo que deveria ser, na verdade, um palácio imponente.. A falta de visão das implicações de suas afirmações faz com que tais “doutores”, desejando ministrar vitamina à igreja contemporânea, injetem um veneno letal em suas veias..

Um dos motos criados pelos defensores do teísmo aberto foi a expressão “outro Deus”. A intenção de tal expressão é transmitir a ideia de que a personalidade de Deus defendida pela igreja de tradição histórica, embasada nas Escrituras, não seria, de fato, a expressão de Deus como ele realmente é. Para o teísmo aberto, a visão clássica do Senhor da igreja é resultado de equívocos, cuja consequência é uma igreja alienada do amor de Deus, desconhecedora da liberdade e opressora dos seus seguidores. Essa é, certamente, uma acusação bem séria que exige análise e resposta. Uma coisa é certa: a expressão “outro Deus”, ainda que infeliz nas bases da sua tese, representa a enorme disparidade entre a igreja histórica e os teístas abertos e no campo da “Teologia Própria” – área da teologia que enfoca a pessoa de Deus. Um dos dois grupos realmente crê em “outro Deus”.

Para tratar a questão, é preciso analisar o “outro Deus” proposto pelo teísmo aberto. Apesar de ser um sistema que possui muitos contornos, há algumas afirmações que são fundamentais na divergência entre a teologia ortodoxa e o teísmo aberto.

‘Deus se limita por amor’

Artigos e entrevistas disponíveis na Internet apontam para o fato de que as bases do teísmo aberto não são análises de textos bíblicos que tratam o assunto em questão, mas reflexões pessoais e resistências a conceitos e respostas teológicas ao problema do mal. Assim, pode-se constatar que o pensamento parte de frases negativas como “não consigo crer em um Deus que mate ou que condene” e, também, de questões positivas como “o que significa ‘Deus é amor?’”.. Ainda que a inaptidão de alguém em aceitar certa realidade não seja, nem de longe, fator para desacreditá-la, a pergunta sobre o amor de Deus é tremendamente válida e deve ser respondida. O problema não está na pergunta, mas nos pressupostos que guiam a resposta. Artigos publicados dão conta de que proponentes do teísmo aberto iniciaram tal resposta a partir do seguinte pressuposto: “Deus é amor quando dá ao homem liberdade plena”.

Esse pressuposto, criado no íntimo de tais pensadores, foi estendido a implicações de ordem prática. O pensamento progrediu mais ou menos assim: “Se Deus ama o homem, dá a ele liberdade. Liberdade para quê? Certamente, para ditar os rumos da sua vida. Logo, Deus deve conceder tal liberdade não apenas de modo aparente, mas de fato. Para isso, ele não determina o que irá acontecer nem no presente, nem no futuro. Logo, Deus se abstém de exercer a soberania sobre o homem. Contudo, se Deus não controla a história, mas conhece o futuro, essa liberdade que dá é ilusória, pois tudo que o homem fizer sempre vai levá-lo ao mesmo destino. Portanto, para Deus ser de fato amor, ele não somente deve deixar de ser soberano, mas deve deixar, também, de ser onisciente. Desse modo, Deus se limita por amor..

Essa é uma construção filosófica interessante, mas que não tem qualquer fundamento nas Escrituras para subsistir. Na verdade, essa afirmação existe a despeito do ensino bíblico. Para se ter uma visão melhor sobre esse pensamento filosófico e sua relação com a Palavra de Deus, é preciso analisar as duas principais afirmações do teísmo aberto: “Deus não controla a história” e “Deus não conhece o futuro”.

‘Deus não controla a história’

O apóstolo Paulo disse a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). A “utilidade” da Escrituras para instruir os servos de Deus e aperfeiçoá-los deve tornar a Palavra de Deus o critério de avaliação de cada coisa que é dita à igreja que Cristo resgatou. É por meio dela que se deve julgar a afirmação de que Deus limitou sua soberania e se negou a controlar a história por amor ao homem. E, feita a avaliação, deve a igreja rejeitar o erro e reter o que é bom (1Ts 5.21).

Segundo as Escrituras dadas pela ação do Espírito Santo (2Pe 1.20,21), a afirmação de que Deus não exerce soberania por amor dos homens não consegue permanecer. Paulo ensina exatamente o oposto ao dizer que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Jó, que a princípio ficou confuso diante do sofrimento que atravessava, ao ser exortado pelo Senhor, concluiu: “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.2). Esses textos falam, de maneira muito clara, da soberania do Senhor de modo conceitual. Entretanto, ela pode ser vista em relatos contidos nas Escrituras como exemplos práticos do controle do Senhor sobre a história e do conhecimento que tem de todas as coisas, incluindo o futuro.

Um evento marcante nesse sentido é o “dilúvio”. Enquanto o teísmo aberto afirma que Deus não teve nenhuma participação nos tsunamis dos nossos dias e que ele nem sequer sabia que eles aconteceriam, um tsunami mundial aconteceu depois de Deus avisar previamente e enviá-lo, dando fim à humanidade, com exceção de Noé e de sua família.. Gênesis 6 apresenta Deus em pleno uso de sua onisciência e soberania:

a)       Deus teve um propósito no evento: “Disse o Senhor: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn 6.7 cf. v.5).

b)       Deus anunciou previamente o que faria e, de fato, o fez: “Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus; tudo o que há na terra perecerá” (Gn 6.17 cf. 7.11,12)..

É claro que nem sempre a soberania do Senhor foi bem aceita pelos homens. Em Babel, os homens se rebelaram contra Deus a fim de cumprirem suas próprias vontades, o que Deus não permitiu, separando-os “efetivamente”.. Mesmo decididos e organizados, os homens da antiga Mesopotâmia não conseguiram fazer sua “liberdade” prevalecer contra os planos do Senhor: “E o Senhor disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade” (Gn 11.6-8).

Não dá para alistar cada relato bíblico no qual o Senhor cumpre sua vontade com poder irresistível. Assim, um bom modo de notar, de maneira sucinta, a soberania de Deus sobre o homem, é observar seu controle sobre os rumos das nações por meio dos seus governos. Poderosos governantes foram instituídos e depostos por Deus. Paulo afirma que cada governante recebe de Deus seu cargo: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.1). Caso alguém queira contradizer tal ideia, afirmando que Deus determinou os tipos de governo, mas não os detentores do poder, o livro de Daniel torna seu efeito sua tentativa, ao dizer: “O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (Dn 4.33b). Deus vai além e não somente coloca as pessoas que quer no poder, mas as utiliza na execução do seu plano previamente traçado, como aconteceu em Jerusalém: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27,28 – destaque meu).

As afirmações sobre a soberania de Deus aplicada à história da humanidade são tantas e tão contundentes que não há como atacá-las.. Entretanto, os ataques do teísmo aberto não se dão somente à soberania em si, mas aos propósitos de Deus. Para o teísmo aberto, Deus nunca teria propósitos em uma catástrofe, pois seus únicos propósitos teriam relações unicamente com o amor e com a felicidade de todas as pessoas.

Não é possível sondar os propósitos e a mente do Senhor (Rm 11.33-35). Entretanto, olhando para situações semelhantes nas Escrituras, é possível notar propósitos de Deus que são concomitantemente viabilizados por meio de uma situação de crise:

a)       Bem dos crentes que sobrevivem à tragédia.. Nem todo benefício da vida cristã vem da alegria e do consolo. O crescimento do servo de Cristo vez por outra se dá no meio de provações. É por meio delas que eles desenvolvem a dependência de Deus, aprendem a ser fiéis em tudo e são despertados para a necessidade de nutrir a esperança futura. Por isso, Tiago afirma: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.2-4).

b)       Traslado dos crentes que morrem para junto de Deus. A vida do homem nesse mundo está longe de ser a realidade final da sua existência. Mais ainda do servo de Deus, visto que aguarda uma pátria e uma existência superior: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas” (Fp 3.20,21). Desse modo, a morte, seja em uma tragédia, seja em uma cama confortável, sempre leva o crente à presença maravilhosa do Senhor. O cristão não teme a morte, pois seu segundo estado é sempre melhor que o primeiro, pelo que é verdadeiro o texto que diz que “preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” (Sl 116.15). Paulo concordava com isso e declarava seu “desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23).

c)       Convite de conversão aos incrédulos. Um evento de natureza catastrófica costuma assustar muito os homem e fazer temer aqueles que não têm a paz que vem da certeza da salvação e da vida eterna. Nesses momentos, é muito comum homens e mulheres refletirem sobre a transitoriedade da vida humana e sobre a necessidade de se buscar um abrigo seguro que os proteja, não dos efeitos das catástrofes, mas dos efeitos da morte. Desse modo, muita gente é chamada por Deus à salvação em Cristo por meio de situações catastróficas. As igrejas e as agências missionárias, sabendo disso, sempre se empenham por divulgar a mensagem de Cristo aos sobreviventes de tragédias como as do Japão, do Haiti e de Petrópolis (RJ). Um exemplo da oportunidade evangelística em uma crise é o do terremoto de Filipos promovido pelo Senhor para aliviar Paulo e Silas. O carcereiro de Filipos, vendo as celas abertas depois de um terremoto, intentou tirar sua vida. Foi quando ele ouviu a mensagem do evangelho e foi salvo por Cristo: “De repente, sobreveio tamanho terremoto, que sacudiu os alicerces da prisão, abriram-se todas as portas, e soltaram-se as cadeias de todos. O carcereiro despertou do sono e, vendo abertas as portas do cárcere, puxando da espada, ia suicidar-se, supondo que os presos tivessem fugido. Mas Paulo bradou em alta voz: Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos! Depois, trazendo-os para fora, disse: Senhores, que devo fazer para que seja salvo? Responderam-lhe: Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa. E lhe pregaram a palavra de Deus e a todos os de sua casa” (At 16.26-28,30-32).

d)       Punição de homens rebeldes. Tragédias também podem servir a propósitos punitivos do Senhor em relação a homens que se mantêm rebeldes à sua Palavra e distantes da sua santidade. Basta olhar para a rebelião no meio de Israel liderada por Corá, Datã e Abirão (Nm 16). Deus resolveu a questão punindo os rebeldes. O modo da punição foi um tremor de terra que engoliu os homens a quem o Senhor abateu: “E aconteceu que, acabando ele de falar todas estas palavras, a terra debaixo deles se fendeu, abriu a sua boca e os tragou com as suas casas, como também todos os homens que pertenciam a Corá e todos os seus bens. Eles e todos os que lhes pertenciam desceram vivos ao abismo; a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação” (Nm 16.31-33).

e)       Sinais dos tempos. Jesus utilizou essa expressão (Mt 16.3) para dizer que alguns eventos, como sua ressurreição, apontam para a veracidade da revelação e para o progresso do curso da história em direção aos eventos escatológicos. Antes desses dias, disse Jesus, muitas coisas deveriam acontecer, incluindo tragédias: “E, certamente, ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares” (Mt 24.6,7).

‘Deus não conhece o futuro’

A fim de complementar a tese da total liberdade do homem, o teísmo aberto também afirma que Deus desconhece o futuro. Segundo essa visão, Deus fica tão surpreso quanto os homens quando algo inesperado acontece. E não se trata apenas de grandes eventos como uma catástrofe natural, mas, também, de eventos corriqueiros como uma partida de futebol, à qual Deus tem de aguardar o término a fim de conhecer o placar final.

É claro que esse pensamento não é derivado das Escrituras.. Toda a Bíblia aponta em outro sentido e apresenta o Senhor como Deus “onisciente”.. Ele sabe tudo que acontecerá e programou previamente tudo que fará: “Desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). Para que não haja enfado na apresentação das provas bíblicas da onisciência de Deus, cinco exemplos básicos do seu conhecimento prévio dos acontecimentos são capazes de provar aquilo que é inquestionável..

a)       A fome nos dias de José. Deus deu um sonho a Faraó e somente José foi capaz de interpretá-lo. Ele anunciava previamente algo que aconteceria nos próximos catorze anos. Seriam sete anos de fartura e de boas colheitas, seguido por sete anos de fome. O anúncio prévio do Senhor sobre algo que ainda não tinha ocorrido foi justamente o que salvou toda a região da fome e preservou a família de Jacó de perecer. Ao revelar o sonho, José disse que “Deus manifestou a Faraó o que há de fazer” (Gn 41.25b).

b)       Estátua de Nabucodonosor. Nabucodonosor também teve um sonho: uma estátua feita de diversos materiais. Daniel, recebendo de Deus o significado do sonho, revelou ao rei que cada material, começando pela cabeça e seguindo em direção aos pés, eram reinos do mundo. O primeiro deles era a própria Babilônia, à qual Nabucodonosor comandava. Ao longo da história, os reinos se sucederiam até que uma pedra vinda dos céus os destruiria a todos. Essa profecia, que prevê os rumos do mundo desde o tempo de Nabucodonosor até a volta de Cristo, é tão impressionante e precisa, que teólogos liberais se negam a acreditar que tenha sido escrita nos dias de Daniel (século 6 a.C.). Tais teólogos propõem que ela data do século 1 ou 2 a.C.. e que foi mascarado como se fosse de época bem mais antiga. A precisão da profecia fez o liberalismo teológico considerar tal predição um vaticinium ex eventum, ou seja, uma profecia feita depois do ocorrido. Essa falácia não resiste à verdade. A verdade é que Deus conhecia e fez saber os rumos da política internacional desde aqueles dias até o fim da nossa era, pelo que Daniel disse ao rei: “Aquele, pois, que revela mistérios te revelou o que há de ser” (Dn 2.29b).

c)       A destruição do altar pagão por Josias. Depois da divisão de Israel em dois reinos (931 a.C.), Jeroboão construiu no reino do Norte dois altares, um em Dã e outro em Betel. Um profeta de Judá foi enviado por Deus a Betel, onde Jeroboão oferecia sacrifícios no altar. Disse o profeta: “Altar, altar! Assim diz o Senhor: Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti os sacerdotes dos altos que queimam sobre ti incenso, e ossos humanos se queimarão sobre ti” (1Rs 13.2). Essa predição, como nome e sobrenome – Josias, da casa de Davi – foi feita na segunda metade do século 10 a.C. Seu cumprimento, exatamente pelo rei Josias, descendente do rei Davi, se deu perfeitamente, como previsto, na segunda metade do século 7 a.C., cerca de trezentos anos depois, conforme revela a seguinte narrativa: “Olhando Josias ao seu redor, viu as sepulturas que estavam ali no monte; mandou tirar delas os ossos, e os queimou sobre o altar, e assim o profanou, segundo a palavra do Senhor, que apregoara o homem de Deus que havia anunciado estas coisas” (2Rs 23.16).

d)       A subjugação da Babilônia por Ciro. O Senhor determinou que a Babilônia dominaria os reinos, mas veria logo seu ocaso – o que ocorreu em 539 a.C. com a queda da Babilônia. Como veículo da destruição do império babilônico, Deus anunciou, por meio do profeta Isaías, quem seria o algoz do império caldeu, dizendo: “Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face, e para descingir os lombos dos reis, e para abrir diante dele as portas, que não se fecharão” (Is 45.1). Ainda que alguém possa dizer que essa declaração não passou de um “bom palpite” de Deus, outra declaração foi feita de modo a descrever, com precisão, a atuação do líder medo-persa: “O Senhor amou a Ciro e executará a sua vontade contra a Babilônia, e o seu braço será contra os caldeus” (Is 48.14b cf. Es 1.1). Essas palavras foram registradas no final do século 8 a.C. e se cumpriram na segunda metade do século 6 a.C., exatamente como predito por aquele que tudo conhece..

e)       Os eventos do Apocalipse. Cerca de um quarto das Escrituras são profecias, das quais boa parte trata de coisas que ainda não aconteceram. Tanto o livro do Apocalipse, como profecias do Antigo e do Novo Testamento, apontam para eventos futuros que preveem o juízo de Deus sobre o mundo, conversão e perseguição de israelitas e de gentios crentes, o domínio do anticristo por certo tempo, o retorno de Jesus vencendo os ímpios e promovendo julgamentos, a restauração de Israel na terra prometida a Abraão, a entronização do rei prometido a Davi, a produção de um novo coração nos israelitas como prometido por Jeremias e, ao final de tudo, um novo céu e uma nova terra. Deus anunciou todas essas coisas ao seu povo a fim de lhes dar segurança da vitória e consolo nas tribulações. Nada disso seria possível caso fosse verdadeira a tese de que Deus não conhece o futuro.. Na verdade, toda a Escritura seria falsa e perderia o valor. A igreja de Deus nem sequer saberia o que é “esperança”. O máximo que poderia acontecer seria Deus fazer previsões que não poderia cumprir, torcendo para darem certo. Na verdade, esse pensamento é tão absurdo como contrário ao cristianismo. Para o escritor bíblico, a certeza de que as promessas de Deus se cumprirão é a marca da fé cristã genuína: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem [...] Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra (Hb 11.1,13).

‘Ou Deus controla tudo ou ele ama’

A conclusão a que o teísmo aberto chega, que obviamente necessita de análise e resposta, é que “o controle não combina com o amor”.. A tese é que, “se Deus ama de verdade, não controla as pessoas”.. Em defesa de tal tese são ditas frases fortes como: “Um Deus que tem propósito pra tudo, inclusive para o mal, é réu confesso! E a pena deveria ser a morte! Um Deus que tem propósito na miséria humana, na violência, na dor, é, na verdade, um diabo!”.

Mais uma vez, não é da Bíblia que vêm tais pensamentos. Nas Escrituras, o amor de Deus não é demonstrado por meio da ausência de controle, mas:

a)       Pelo sacrifício de Jesus em lugar do pecador.. Para promover uma profunda mudança na vida de pecadores perdidos, mortos em seus pecados (Ef 2.1), o amor de Deus se revelou enviando seu Filho para morrer por pessoas que nem mereciam, nem queriam ser alvos de tal benefício. A isso a Bíblia chama de amor: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).

b)       Por um controle que livra o redimido da escravidão do pecado e o submete a Cristo. O amor de Deus não dá livre curso à vontade do homem porque essa, depois da queda, se tornou má (Ec 7.29; Rm 3.10-12), seu entendimento ficou corrompido (2Co 4.3,4) e ele passou a ser dominado por satanás (Ef 2.2). Não há liberdade na vida do perdido; apenas escravidão (Rm 7.14). A atuação amorosa de Deus liberta os pecadores dessa condição, livrando-os da morte e do pecado (Rm 8.2), mas sem deixá-los sem um Senhor. A liberdade dada por Deus é a liberdade para servi-lo. Deixamos de servir o pecado para servir a Cristo, pelo que diz o apóstolo: “Porque o que foi chamado no Senhor, sendo escravo, é liberto do Senhor; semelhantemente, o que foi chamado, sendo livre, é escravo de Cristo” (1Co 7.22 cf. Rm 6.18,22). Na Bíblia, a liberdade cristã não é “ausência de um senhor”, mas a “submissão ao Senhor correto” – o Senhor Jesus Cristo.

Esse controle salutar do Pai celestial sobre os filhos redimidos é prova de amor e garantia de felicidade. Até as correções do Senhor, prova contundente do seu controle, são evidências marcantes do seu amor pela igreja: “Porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe” (Hb 12.6). Essa lógica não é apenas divina. A falácia do teísmo aberto é destruída até mesmo no trato dos pais humanos com seus filhos. Jesus perguntou, certa vez: “Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra?”(Mt 7.9,10).. O óbvio é que os pais não dão plena liberdade aos seus filhos, nem deixam que todos os seus desejos se cumpram. Fazem isso por maldade? Ao contrário! Fazem-no por amor, a fim de garantir o bem dos filhos. Desse modo, “controlar para produzir segurança e um fim proveitoso é prova de verdadeiro e leal amor”.

Por isso, a atitude correta dos cristãos diante do Pai eterno não é a de buscar liberdade do seu controle, mas se submeter a ele, como revelam as orações dos escritores neotestamentários: “Pois espero permanecer convosco algum tempo, se o Senhor o permitir” (1Co 16.7 destaque meu); “Isso faremos, se Deus permitir” (Hb 6.3 destaque meu).

Conclusão

Ao final dessa reflexão, algumas conclusões são bem claras:

a)       Apesar da tristeza e dos sofrimentos produzidos por uma catástrofe como a do Japão, a verdade é que nada acontece sem que Deus tenha planejado e efetuado. Seus propósitos são cumpridos nesses eventos e nos demais a fim de glorificar seu nome, edificar a igreja, chamar perdidos ao arrependimento, punir o pecado e anunciar o retorno de Cristo. Em tudo, inclusive nos eventos tristes que não compreendemos, a vontade de Deus é “sempre boa, perfeita e agradável” (Rm 12.2).
b)       O teísmo aberto é expressão de uma visão aversa às Escrituras.. Suas fontes comumente citadas – ateus que se dedicaram a atacar a credibilidade das Escrituras como Nietzsche, Sartre e Espinoza – não são confiáveis para a verdadeira igreja de Cristo, nem lhe trazem nada de salutar, nem tampouco conseguem anular a validade e a veracidade da Palavra de Deus..
c)       O “deus” proposto pelo teísmo aberto, um simulacro do homem, realmente é “outro deus” como a própria posição propõe. Trata-se de um deus estranho às Escrituras, estranho ao povo redimido por Cristo e estranho ao Deus eterno, Todo-poderoso, aquele que conhece todas as coisas e que controla tudo que acontece para o bem “daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28 – destaque meu).

Pr. Thomas Tronco

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ações que nos Levam a Agradecer

Li, certa vez, sobre um capelão do Exército americano chamado Clark Vandersall Poling, ex-aluno da Yale Divinity School. Em 3 de fevereiro de 1943, em meio à Segunda Gerra Mundial, ele estava a bordo do navio cargueiro U.S.S. Dorchester, que transportava mais de novecentos homens, quando sofreu um ataque de torpedos. Era madrugada e eles estavam no mar gelado cheio de icebergs. Vinte e cinco minutos foram suficientes para afundar o navio e lançar no mar da magrugada fria os quase mil homens. A contagem de mortos foi de 678 homens – mais de dois terços do total. Entre eles havia quatro capelães, incluindo Clark Poling. Relatos dão conta de que os quatro cederam a outros os seus coletes salva-vidas e foram vistos pela última vez de mãos dadas orando pela segurança dos soldados. Tal atitude de bravura e abnegação fez com que os quatro capelães tivessem seus nomes e rostos estampados em selos, placas comemorativas, pinturas, vitrais e até em um monumento em homenagem a eles.

Atitudes como as desses capelães são lembradas e recontadas muitas vezes, muito tempo depois de acontecerem. Geram um misto de sentimentos nas pessoas como admiração, tristeza e agradecimento. A guerra, em meio às suas atrocidades, consegue destacar atitudes heróicas e desprendidas de homens que, mesmo mortos, dão bons exemplos e encorajam outros a darem o melhor de si. Por isso, nos muitos documentários que li e vi em vídeos, percebi que algo se repete como um eco. Muitos guerreiros, de volta às suas casas, costumam dizer duas coisas: a primeira é que “os verdadeiros heróis são aqueles que morreram nos campos de batalha”; a segunda é que são gratos a alguém que fez algo incrível por eles, às vezes dando a própria vida para salvá-los.

O rei Davi também era grato por ações de outro nas batalhas, a saber, ao próprio Deus. O Salmo 21 é um cântico de gratidão por ações ainda mais eficazes que as dos heróis guerreiros. Davi demonstra uma alegria contagiante ao lembrar o que Deus fez por ele. Por isso, o salmista inicia (v.1) seu cântico dizendo: “Senhor, o rei se regozija no teu poder e quão grande é a alegria no teu livramento!” (yehwâ be‘azzeka ismah-melek ûbîshû‘ateka mah-yageyl me’od). O rei em questão é o próprio salmista que, curiosamente, se refere a si mesmo na terceira pessoa (ele) por todo o salmo. Quanto à sua exultação, ela tem motivos bem definidos. Há, nesse salmo, pelo menos cinco ações de Deus que costumam produzir louvores nos seus servos.

A primeira delas é atender as orações. Davi diz (v.2) a Deus: “Concedeste-lhe os desejos do seu coração” (ta’awat livvô natattâ lô). Esse tipo de linguagem quase sempre está ligado não apenas aos desejos do servo, mas à sua oração por eles. É o caso desse exemplo. O salmista não apenas tem necessidades, mas pede a Deus que intervenha nelas. O pranto se torna riso quando Deus, não alheio à condição e aflição do servo, ouve a súplica do rei e a atende. A exultação de Davi está, portanto, no fato de o Senhor ter respondido seu pedido. Por isso escreve: “E não negaste o pedido dos seus lábios” (wa’areshet sefatayw bal-mana‘ta).

A segunda é agir com bondade. A palavra “pois” (), no início do v.3, demonstra que o que ele vai dizer a seguir está relacionado com o que já afirmou no verso anterior. É uma explicação que associa a resposta de Deus com sua bondade. O texto traz: “Pois leva-lhe bênçãos de bondade” (kî-teqaddemennû birkôt tov). É a ideia de alguém que deixa seu conforto para “sair ao encontro” de outro a fim de, especificamente, entregar-lhe coisas boas que são fruto de um coração benigno e amoroso. Não é de espantar que Davi, diante do Senhor dos senhores, que de ninguém precisa, fique alegre a agradecido por vê-lo agir desse modo. A visão da bondade de Deus se perfaz no resultado da ação: “Colocas sobre a sua cabeça uma coroa de ouro refinado” (tashit lero’shô ‘ateret paz). Esse é o vislumbre da vitória de Davi sobre seus inimigos e o reconhecimento público da sua entronização sobre Israel, tudo isso efetivado pelo Senhor.

A terceira ação é produzir alegria. Depois de os vv.4,5 corroborarem a visão das benesses de Deus sobre o rei, o v.6 explica que as “bênçãos de bondade” não foram dadas de modo transitório. Davi está extasiado diante do Senhor “pois lhe preparaste bênçãos perpétuas” (kî-teshitehû berakôt la‘ad). “Bênçãos sem fim” também é uma tradução possível para a expressão usada pelo salmista. Deus não foi parcimonioso com seu servo. Resolveu abençoá-lo e nada vai mudar tal desejo ou a aplicação da soberania divina. O resultado de uma ação desse porte é a resposta alegre de Davi. Na verdade, as bênçãos de Deus aqui descritas produzem, por si só, tal alegria. Portanto, Davi completa: “Encheste-lhe de alegria com a tua presença” (tehaddehû besimhâ ’et-paneyka).

A quarta ação de Deus que gera louvores é fortalecer os servos. Sempre que se fala de Davi, seja como rei, seja como salmista, seja como refugiado, precisa-se apontar sua constância como servo de Deus. Ele não era uma pessoa que agia de um modo quando tudo ia bem e de outro quando as coisas ficavam difíceis. Sua constância estava embasada na constância e na bondade do próprio Deus em quem esperava. Por isso, proclama o salmista (v.7): “O rei, pois, é alguém que confia no Senhor” (kî-hammelek boteah bayhwâ). Se isso é realidade enquanto escreve o salmo, sabe ele que também o será no futuro, pois acrescenta: “E com a fidelidade do Altíssimo ele não falhará” (ûbehesed ‘eleliôn bal-yimmôt).

Por fim, a quinta ação é vencer o mal. A confiança de Davi não é sem razão. Depois de andar toda sua vida na presença de Deus, aprendeu sobre o modo de ele agir contra aqueles que lhe são contrários. Assim, os inimigos de Deus, que também eram inimigos do seu servo, seriam alvo da mão punitiva do reto juiz. Na certeza de que mais uma vez tal seria a ação de Deus em seu favor, Davi se alegra desde já dizendo (v.8): “A tua mão cairá sobre todos quantos lhe são hostis; a tua destra atingirá aqueles que te odeiam” (timtsa’ yodkâ lekal-’oyebyeka yemîneka timtsa’ sone’eyka). Assim, tantos os “maus” como o “mal” que produzem encontrarão um fim nas mãos punitivas do santo Deus.

Não é pouco o que fez o Senhor por Davi para produzir nele todo o louvor e gratidão demonstrados nesse salmo. Na verdade, nem é pouco o que o Senhor tem feito pelos seus servos, incluindo a nós mesmos. O problema, muitas vezes, longe de estar nas mãos do Senhor, está nos olhos dos servos que deixam passar despercebidas atuações divinas tão grandiosas como essas. Quando os olhos dos servos, desprovidos de confiança e esperança, voltam-se apenas para as circunstâncias e dificuldades da vida e se afastam da bondade do Soberano, a benesse do Senhor não é notada. Isso cria crentes lamuriosos e descontentes.

Contudo, basta notar o que Deus tem feito e sido para seu povo. Basta ver o modo como responde suas orações, como age com bondade para com eles, a alegria que sua presença lhes causa quando mantêm comunhão, o modo como os fortalece e como os livra do mal. Essa observação produzirá, certamente, em todos nós que já entregamos a vida a Cristo e que pertencemos ao Senhor da igreja, a mesma conclusão (v.13) com a qual Davi encerrou o Salmo 21: “Cantemos e façamos músicas sobre a tua força” (nashîrâ ûnezammerâ gebûrateka). Em outras palavras, “louvemos e sejamos gratos ao nosso santo Deus”.

Pr. Thomas Tronco

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Tempo de Oração em Tempos de Crise

Duas histórias me marcaram dias atrás, ambas relacionadas com a prática da oração. A primeira delas é sobre Martinho Lutero. Dizem os estudiosos que Lutero foi um homem dedicado ao extremo à obra de Deus. Incansavelmente, desde o raiar do dia, ele investia horas a fio no estudo, tradução e comentários teológicos, produzindo um vasto material e um grande legado. Apesar de tantas obrigações autoimpostas, Lutero passava uma ou duas horas do dia orando. Curiosa mesmo era sua explicação para orar tanto tempo: “Eu oro muito porque tenho muita coisa para fazer”.

A segunda história tem como pano de fundo as atividades de uma comissão eclesiástica para a contratação de um pastor. Enquanto a comissão examinava o candidato sobre suas posições teológicas e sua experiência administrativa, uma senhora piedosa o interrogou a respeito de quanto tempo ele gastava em oração. Um silêncio profundo foi sentido até que outro membro da comissão explicou que o pastor, antes de pregar, dirigiu a igreja em oração por cerca de quatro minutos. A gentil senhora então explicou: “Não foi isso o que eu quis dizer. Eu quero saber quanto o senhor ora pela igreja, pelos membros e por você mesmo em seu tempo devocional”.

Essas duas histórias chamaram minha atenção, pois falam da oração feita em momentos em que se imagina que ela consome tempo e esforço necessários para tarefas “mais importantes”. As duas histórias nos lembram como esse conceito é falso e quanto a oração é necessária, inclusive – se não “principalmente” –, nos momentos mais atarefados e difíceis da vida.

O rei Davi é um bom exemplo, no Salmo 20, de priorização da oração em momentos difíceis. Ao que tudo indica, ele vivenciava a iminência de uma guerra. A batalha se aproximava e todos os preparativos deviam ser feitos: o deslocamento das tropas, a preparação das armas, a instrução dos comandantes, a organização das provisões, o encorajamento dos soldados e muitas outras tarefas imprescindíveis para enfrentar militarmente um inimigo. Tudo isso leva tempo e dá muito trabalho. Na verdade, exige empenho total, principalmente por parte do comandante nesse caso, o rei.

É nesse momento tão atarefado que Davi encontra tempo para orar, ou melhor, ele prioriza a oração. E não somente para ele, mas para todo o povo. O Salmo 20 é uma composição a fim de os israelitas se dirigirem a Deus em oração pedindo suas bênçãos sobre o exército e clamando por vitória para seu rei. O mesmo salmo parece servir como veículo para levar o povo da terra e os soldados a atitudes corretas diante de Deus a fim de, com a verdade em mente, cumprir cada um seu papel em consonância com a vontade do Senhor. Pelo menos três atitudes são incentivadas por Davi por meio do salmo que deveria ser repetido, em espírito de oração, pelo povo.

A primeira delas é a petição. O salmo inicia com o povo orando pelo rei (v.1): “Que o Senhor te atenda no dia perigoso. Que o nome do Deus de Jacó te defenda” (ya‘anka yehwâ beyôm tsarâ yesaggevka shem ’elohê ya‘aqov). Como o rei Davi lutou com o exército e o liderou no campo de batalha por boa parte da sua vida, o povo clama a Deus que lhe dê proteção diante do perigo de ser ferido na luta e para ser mantido seguro. A ideia é ser colocado em um lugar alto, como um pequeno filhote, para os predadores não o alcançarem. Apesar de haver um exército para proteger o rei, sem falar na sua guarda pessoal, o povo clama por um auxílio que vem de outra fonte que não soldados e generais. O pedido é (v.2): “Que envie ajuda para ti do santuário e de Sião te sustente” (yishlah-‘ezreka miqqodesh ûmitsîyôn yis‘adeka). A fonte da ajuda a Davi deveria vir do “santuário” e do “monte Sião”, ambos localizados em Jerusalém. Na verdade, essa é uma figura de linguagem para se referir àquele que era adorado no santuário e em Sião. É o Senhor Deus a fonte da proteção do seu servo na batalha. Esse tom de petição permanece até o final do salmo (v.9): “Preserve o rei, ó Senhor” (yehwâ hôshî‘â hammelek).

A segunda atitude é a submissão. Apesar de o desejo do povo, dos soldados e do próprio rei ser a vitória, sua petição se submete ao plano e ao desejo do Deus dos exércitos. Sua oração não age como se fosse um modo de convencer Deus a cumprir a vontade dos pedintes. Ao contrário, é um ato de confiança e de submissão àquele cuja vontade é boa (Rm 12.2) e cuja soberania é imbatível (Dn 4.35; Ef 1.11). Assim, eles oram (v.4): “Dê-lhe conforme o teu coração e cumpra todos os teus planos” (yitten-leka kilvaveka wekal-‘atsatka yemalle’). Essa é uma oração corajosa. Lógica também, pois se baseia na revelação das Escrituras de que Deus faz tudo conforme lhe apraz. Entretanto, é corajosa por abrir mão de decidir seu rumo confiando que os rumos do Senhor, coincidindo ou não com o dos solicitantes, são sempre os melhores. Portanto, não é uma coragem irresponsável, mas a confiança corajosa de quem conhece seu Senhor. Por isso, eles declaram (v.7): “Uns confiam nos carros e outros nos cavalos, mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus” (’elleh barekev we’elleh bassûsîm wa’anahnû beshem-yehwâ ’elohênû nazkîr).

A terceira é a gratidão. Mesmo parecendo extemporâneo, o povo, pela escrita de Davi, já fala de agradecimentos e louvores a Deus pela vitória. Devemos notar que não há aqui qualquer tipo de superstição do tipo “agradeça antes para que venha a acontecer”. O salmista conhece o modo de Deus agir nas situações da vida. Não era a primeira vez que Davi lutaria apoiado por Deus. Ele sabia como Deus o suportou no passado e como o sustentava agora. Portanto, depois de exibir confiança no Senhor, ele leva agora o povo a declarar sua gratidão a Deus e se preparar para louvá-lo na sequência da sua atuação em prol dos servos. Consequentemente, eles proclamam (v.5): “Celebremos nós pelo teu livramento e icemos a bandeira pelo nome do nosso Deus” (nerannenâ bîshû‘ateka ûbeshem-’elohênû nidgol).

Só então, depois de escrever um salmo, reunir o povo e levá-los a orar a Deus pedindo proteção e vitória para o rei e seu exército, é que os preparativos para a guerra encontram oportunidade de acontecer. A lição parece ter-se perpetuado, pois, Josafá mais de um século depois, ao receber a notícia de que três exércitos se aproximavam por um caminho inesperado e sem defesas (2Cr 20), estando a menos de um dia de Jerusalém , em lugar de se desesperar e correr atrás dos preparativos para a guerra, em primeiro lugar, se dobrou em oração perante o Senhor e levou o povo a fazer o mesmo (2Cr 20.3,4). O resultado foi uma vitória fantástica (2Cr 20.22-25).

Que exemplos como esses nos ensinem e nos motivem a buscar Deus, não apenas “apesar da falta de tempo”, mas, principalmente “por causa da falta de tempo”. Afinal, qual é o preparativo ou a providência que não vêm das mãos daquele que é soberano sobre tudo e que cuida com amor e zelo daqueles que lhe pertencem?

Pr. Thomas Tronco

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Grandeza da Revelação de Deus

Certa vez, entrando em um restaurante para jantar com minha esposa e minha filha, notei um grupo de pessoas conhecidas que também perceberam minha entrada. Com ouvido aguçado, escutei alguém do grupo dizer a outro que falasse mais baixo, pois eu estava próximo a eles. Qualquer que fosse o assunto, em lugar de intimidar o rapaz, esse alerta fez com que ele se virasse para mim – foi quando o reconheci – e dissesse em um tom alto de voz: “Não é verdade que isso está na Bíblia, Thomas?”. Ao perguntar a que ele se referia, a resposta foi: “... que em mulher não se bate nem com uma flor”. Diante do patente desconhecimento das Escrituras, só pude responder que, apesar de esse ditado popular não vir exatamente da Bíblia, eu realmente concordava com ele. Entretanto, o que me chamou mesmo a atenção foi perceber como as pessoas “acham” que sabem o que Deus revelou aos homens.

Davi sabia bastante sobre a revelação de Deus. Ele foi um salmista profícuo, o que quer dizer que passou uma boa parte do seu tempo dedicado à composição de salmos que, na verdade, são poesias e cânticos. É o autor que tem o maior número de composições no livro de Salmos. Entretanto, música e poesia parecem não ser as únicas habilidades da pena de Davi. Em termos de teologia ele abriu o caminho para grandes servos de Deus registrarem os aspectos mais profundos da revelação bíblica. Os apóstolos escritores citaram inúmeras vezes salmos de Davi e ensinaram à igreja dos seus dias – e dos nossos – diversos conceitos registrados pelo rei poeta um milênio antes deles.

O apóstolo Paulo, talvez o autor cujos escritos bíblicos sejam os de maior profundidade e importância teológica que temos, foi um dos escritores que citaram salmos davídicos em seus escritos. Um dentre os muitos temas abordados pelo apóstolo em suas cartas é aquele que fala sobre a própria revelação de Deus ao homem. Nesse sentido, Paulo apresenta dois meios que Deus utiliza para se revelar. O primeiro se dá por meio da Criação: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas...” (Rm 1.20). O segundo se dá por intermédio das Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Os teólogos denominam esse dois meios da revelação divina de “revelação geral” e “revelação específica”, respectivamente.

Toda vez que se fala em revelação, citam-se esses dois textos escritos por Paulo. Entretanto, pouco mais de um milênio antes de o apóstolo registrar tais conceitos, o rei Davi fez o mesmo, sem economizar tinta, no Salmo 19. Esse cântico é o registro tanto da grandeza da verdade revelada por Deus aos homens como dos meios utilizados pelo Senhor para se fazer conhecido a nós.

Assim, em termos de revelação geral, Davi afirma (v.1): “Os céus anunciam a glória de Deus e a abóbada celeste torna conhecida a obra das suas mãos” (hashamayim mesafferîm kevôd-’el ûma‘aseh yadayw maggîd haraqîah). Deve-se notar o paralelismo sinônimo entre “céus” e “abóbada celeste” e, também, entre a ação de “anunciar” e de “tornar conhecido”, pois, seguindo esse raciocínio, percebemos que estão em paralelo, também, a “glória de Deus” e a “obra das suas mãos”. Tal percepção é importante para entender que o que Davi quer dizer com glória está relacionado à obra da criação – não que esse seja o único aspecto glorioso no Senhor. Essa é uma declaração de que tanto o ato da criação foi revestido de glória como o próprio Criador é glorioso. É também a afirmação de que a natureza gloriosa de Deus e da sua atuação pode ser deduzida pela observação do Universo. Afinal, somente um Deus glorioso e perfeito pode produzir uma obra tão perfeita e magnífica. Por isso, completa (v.4): “Sua voz foi ouvida em toda a Terra e suas palavras, na extremidade do mundo” (bekal-há'arets yatsa’ qôlam ûbiqtseh tevel millêhem).

Quanto à revelação específica, aquela que se dá por meio das Escrituras, tema muito abordado pelo rei salmista – tome-se como exemplo o Salmo 119 –, seu julgamento é categórico (v.7): “A lei do Senhor é perfeita” (tôrat yehwâ temîmâ). A partir dessa afirmação, Davi apresenta quatro ações da revelação de Deus nas Escrituras sobre os homens (vv.7,8): Ela é “quem recobra a alma” (meshîvat nafesh), “reforça a sabedoria do ingênuo” (ne’emanâ mahkîmat petî), produz “as alegrias do coração” (mesammehê-lev) e “traz luz aos olhos” (me’îrat ‘ênayim). Alento, sabedoria, alegria e o caminho correto são as bênçãos produzidas por aquilo que Deus revelou por meio dos profetas e apóstolos.

Mas, há que se fazer uma ressalva. Davi não tem em mente nenhum tipo de superstição como exibir em casa uma Bíblia aberta acreditando que, assim, a casa fica protegida e abençoada. O que Davi ensina, nesse salmo, é que tais bênçãos veem da leitura e aplicação dos ensinos de Deus pelos seus servos e que, assim (v.11), “há muita recompensa em cumpri-los” (beshamram ‘eqev rav). O salmista olha para essa esperança de modo aplicativo e pessoal, afirmando o que espera para si pela obediência às Escrituras (v.14): “Serei íntegro e limpo de muitas transgressões” (’êtam weniqqêtî miffesha‘ rav). Guiado pela sabedoria de Deus, sua mais profunda aspiração é: “Sejam aceitáveis diante de ti, Senhor, as palavras da minha boca e a meditação do meu coração” (yihyû leratsôn ’imrê-pî wehegyôn livvî lepaneyka yehwâ).

Portanto, o servo de Deus só pode ser guiado pelo seu Senhor se tomar e ler suas instruções, seu mapa para nossa vida. Em lugar de tentar adivinhar o que a Bíblia ensina ou, pior, querer colocar sob sua autoria o que ela nem sequer diz, cada pessoa deve lançar mão do privilégio de ter acesso à vontade de Deus expressa nas Escrituras. O conhecimento salvador contido na mensagem graciosa da cruz de Cristo e a perfeita ética cristã moldada pelo próprio Senhor só são acessíveis ao homem por meio da Palavra de Deus. Afinal, ditados e provérbios populares podem ser interessantes, corretos e até úteis, mas jamais podem tornar os homens aceitáveis ao santo e justo Senhor.

Pr. Thomas Tronco

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A Busca de Uma Justiça Superior

Um episódio marcante na história americana foi o julgamento, no século 19, envolvendo os “passageiros” do navio L’Amistad (“A amizade”, em espanhol). Eram escravos provenientes da África cujo destino era serem vendidos em Cuba. Liderados em um motim por Cinque, 53 escravos mataram quase toda a tripulação e obrigaram dois sobreviventes a levá-los de volta à África. Desconhecedores de princípios de navegação, não perceberam que foram, na verdade, conduzidos à costa dos Estados Unidos, onde, em agosto de 1839, a guarda costeira os deteve. Foram levados a um tribunal, acusados de homicídio, enquanto os sobreviventes da tripulação, a coroa espanhola e oficiais americanos reclamavam a posse dos escravos a fim de vendê-los. As coisas se complicam ainda mais à medida que as eleições presidenciais se aproximavam e ameaçam afetar o resultado do julgamento com motivações políticas.

Diante de tantos fatores externos e tantos interesses espúrios, o julgamento dos 53 passageiros do L’Amistad tinha tudo para contrariar todos os conceitos de “justiça”. Nesse momento, o ex-presidente John Quincy Adams, recorrendo à Suprema Corte dos Estados Unidos, lutou para que a justiça garantisse a liberdade e a recolocação daqueles homens ao seu país. O resultado final, já no ano de 1841, foi a confirmação da decisão do primeiro julgamento no sentido de libertá-los e entregá-los ao presidente para que os conduzisse de volta à África, declarando os 53 negros livres e dispensando-os imediatamente da custódia da corte. Certamente, essa decisão deu novos rumos à aplicação da justiça e à história norte-americana. É também uma decisão inspiradora, pois, a despeito de todos os interesses políticos e financeiros, a justiça realmente prevaleceu.

O rei Davi também recorreu à justiça suprema – não de uma corte, mas do supremo juiz. O Salmo 17 é um clamor por justiça diante dos fatos apresentados pelo salmista. Sua petição é “Senhor, ouça o que é justo! Escuta o meu clamor! Ouça a minha oração!” (shim‘â yehwâ tsedek haqshivâ rinnatî ha’azînâ tefillatî). É um clamor à suprema corte, ao único que pode decidir justamente e fazer valer a decisão.

A partir de então, as provas apresentadas pelo requerente, Davi, são, em primeiro lugar, seu procedimento justo. Não significa que ele nunca pecasse, mas que buscava obedecer ao Senhor e andar em consonância com sua santidade, fosse pela luta contra o pecado, fosse por meio da busca do perdão divino. Assim, ele diz (v.1) que sua causa “não vem de lábios mentirosos” (belo’ siftê mirmâ). Diz ao Senhor (v.3): “Não encontras maldade nos meus intentos; a minha boca não transgride” (bal-timtsa’ zammotî bal-ya‘avar-pî). Ele completa o quadro (v.4) afirmando: “Eu me guardei dos caminhos do violento” (’anî shamartî ’orhôt parîts). Essa é a descrição de um servo dedicado ao Senhor cujos procedimentos são moldados pelo bem e pela retidão. O que fala é verdadeiro; seus propósitos mais secretos são isentos da maldade; suas palavras são retas e produzem o bem e não atitudes traiçoeiras; suas atitudes são pacíficas e dignas de um homem cuja ética é santa.

Em segundo lugar, as provas apresentadas pelo requerente são os pecados dos seus inimigos que o perseguem e procuram uma oportunidade para matá-lo (vv.8,9). Davi diz (v.10) que “eles endureceram sua boca; falaram com arrogância” (helbamô sogrû pîmô dibberû bege’ût). Mas não é só isso. Davi ainda afirma que “os olhos deles estão postos [sobre os inimigos] para que caiam por terra” (‘ênêhem yashîtô lintôt ba’arets). Finalmente, para fins ilustrativos, Davi fala deles por meio de uma comparação (v.12), dizendo que “eles são semelhantes ao leão ávido para dilacerar a presa” (dimyonô ke’aryeh yikkôf litrôf). Esse é, definitivamente, um quadro de homens orgulhosos, mentirosos, perigosos, cujas ações contra aqueles que consideram inimigos são destruidoras.

Assim, Davi, com as provas sobre a mesa, apresenta (v.13) sua solicitação ao reto juiz: “Livra minha alma dos ímpios pela tua espada” (palletâ nafshî merasha‘ harbeka). Essa é a causa do solicitante. Ele, mediante a apresentação dos seus retos caminhos, condição necessária para o clamor por justiça, e da perversidade dos seus inimigos, pede para que Deus o proteja de tais homens maus. É a última instância da justiça, visto que, ao que parece, ninguém mais pode ajudar Davi.

O fato é que o salmo não especifica a resposta do divino juiz. É bem possível que o salmo tenha sido escrito enquanto a perseguição ocorria, antes do livramento almejado pelo salmista. Os inimigos ainda perseguiam e Davi ainda esperava pela libertação. Entretanto, enquanto espera e sofre com a injustiça, o salmista demonstra uma atitude exemplar que deve inspirar todos os servos do Senhor ainda hoje. Ele diz (v.15): “Ao acordar, eu me satisfarei com o teu semblante” (’esbe‘â behaqîts temûnateka). Essa oração, um pouco misteriosa e intrigante, revela que o salmista, mesmo que ainda não tenha sido aliviado do seu jugo, sente-se suficientemente feliz e grato por ter “comunhão com Deus”, como se pudesse vê-lo face a face. Davi realmente desfrutava a presença do Deus vivo e isso lhe bastava, ainda que nutrisse a esperança do livramento.

Essa atitude exemplar de Davi não é gratuita. Ele conhece o Senhor a quem serve. E mais: ele ama seu Senhor e sabe muito bem que por ele é amado. Tem a perfeita noção do que tal relacionamento significa para sua vida presente e futura. De fato, temos de aprender com Davi e nutrir maior deleite no relacionamento com Deus a despeito de tudo que nos cerca. Afinal, o Senhor Deus é alguém com quem se pode ter a verdadeira e perfeita amistad.

Pr. Thomas Tronco

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A Rica Herança dos Servos de Deus

Meu casamento aconteceu em 1997, quando eu morava na cidade de Grão Mogol, no sertão mineiro. Eu e minha esposa resolvemos fazer a cerimônia na igreja em Atibaia (SP), pois a maior parte dos nossos parentes morava ali, sendo mais fácil deslocar os que moravam fora. Contudo, devido ao tempo e aos procedimentos que envolvem o casamento no cartório, a união legal teve de ser providenciada em Minas Gerais. Cumpri todos os requisitos exigidos e me dirigi ao cartório, com os familiares e amigos, a fim de realizar a tão feliz cerimônia. Estava tudo perfeito até o escrivão ler, no documento oficial, que estávamos nos casando em “regime parcial de bens”.

Em relação a bens, eu não tinha nada a ser partilhado e de modo algum pretendia que isso fosse algum dia necessário. Entretanto, eu não queria a expressão “união parcial” escrita em lugar nenhum que dissesse respeito a mim e à minha esposa. Pedi para mudar, mas já não era mais possível. Eu tinha de ter pedido isso no início do processo, mas como foi a única vez em que me casei, não tinha a menor ideia da necessidade de fazê-lo. Como o escrivão não me preveniu sobre isso a tempo, explicou, meio sem graça, que, antigamente, todos os casamentos eram com união total de bens, a não ser quando os noivos especificavam que desejavam outro tipo de união. Entretanto, pelo alto número de casamentos por interesse na herança da família do cônjuge, alguns deles até mesmo terminando em morte, a lei foi alterada e o formato padrão dos casamentos agora era a união parcial. Não deixei isso entristecer um dia tão alegre, mas não pude deixar de ficar perplexo ao pensar na ganância de muitas pessoas sobre a herança do marido ou da esposa.

O rei Davi também desejou uma herança, mas desejou-a de modo muito diferente. Na verdade, a própria herança era de natureza diferente e Davi escreveu sobre ela no Salmo 16. Mais uma vez ele escreveu um salmo quando era perseguido por inimigos. Entretanto, a diferença entre esse salmo e os outros é que, em lugar de o autor falar da sua confiança na libertação divina, ele olha para o que Deus representa para ele fazendo nublar ao redor os seus problemas.

Depois de declarar que Deus é seu refúgio e que o destino dos ímpios é terrível (vv.1-4), Davi declara o que Deus significa para ele (v.5): “Minha porção da herança” (menat-helqî). Como no v.2 o salmista diz “minha riqueza não está além de ti” (tôbatî bal-‘aleika), parece que a figura central que molda seu pensamento enquanto escreve é o aspecto do Senhor como “a verdadeira riqueza dos seus servos”. Ele diz mais, no v.5, descrevendo Deus como “o meu cálice e aquele que me faz próspero” (wekôsî ’attâ tômîk gôralî).

Depois de falar sobre tanta riqueza, era de se esperar que o salmista apresentasse, agora, uma lista de bens como palácios, peças de ouro e prata, propriedades e povos que o servem e que lhe são tributários – tudo isso dado por Deus. Mas não é isso o que acontece. O salmista fala, sim, sobre riquezas, mas sob um prisma diferente que revela a escala de valores que ele tem. Ele aponta quatro riquezas que vêm do Senhor a ele.

A primeira é o ensino reto (v.7). Davi diz, nesse sentido, duas verdades. Uma, referindo-se à atuação de Deus, é “o Senhor que me aconselhou” (yehwâ ’asher ye‘atsanî). A segunda, completando a primeira cláusula, trata do modo como Deus transmitiu tal conselho a Davi: “Pois minhas vergonhas me instruíram durante as noites” (’af-leylôt yisserûnî kilyôtay). É muito provável que Davi se refira, por meio desse versículo, à direção de Deus no seu íntimo lhe revelando os pecados que o atormentavam durante as noites, em sua cama. O resultado final dessa atuação divina foi o arrependimento do rei de Israel e sua mudança de atitude. Em resumo, quando Davi pecou, o Senhor lhe ensinou o que fazer.

A segunda é a presença constante (v.8). O salmista diz: “Tenho o Senhor diante de mim continuamente” (shiûîtî yehwâ lenegdî tamîd). Isso representa tanto a presença contínua de Deus com seu servo como a comunhão do servo para com o Senhor. É um relacionamento bilateral que, contudo, é dirigido pela graça de Deus. Este, apesar da indignidade do servo, não o abandona jamais. O resultado de um relacionamento como esse é descrito nos seguintes termos: “Pois estando [o Senhor] à minha direita não fracassarei” (kî mîmînî bal-’emmôt).

A terceira é a proteção pessoal (vv.9,10). Davi exulta em seu coração, pois, apesar dos frequentes ataques e tramas vindas de seus inimigos, sua certeza é: “Meu corpo repousará em segurança” (besarî yiskon labetah). É a confiança de que, pela proteção de Deus, seus inimigos não conseguiriam matá-lo. O v.10, segundo Pedro e Paulo, faz referência à ressurreição de Jesus (At 2.25-31; 13.35,36). Contudo, apesar de Davi tê-la profetizado, a aplicação desse texto ao seu contexto imediato corrobora a confiança na proteção divina demonstrada do v.9, dizendo: “Pois tu não deixarás minha alma ir para a sepultura, nem permitirás que teu servo veja o túmulo” (kî lo’-ta‘azov nafshî lish’ôl lo’-titten hasideka lir’ôt shahat).

A última é o rumo sábio (v.11). Finalmente, o salmista diz: “Tu me indicarás o caminho da vida” (tôdî‘enî ’orah hayyîm). Deus age aqui como um mapa, dando a conhecer ao que está perdido o caminho correto que o leva seguro e “vivo” ao seu destino. Ao mesmo tempo, para tanto, afasta-o do caminho oposto, o caminho da morte. Entretanto, não podemos reduzir Deus a um aparelho de localização por satélite. Sua atuação não é apenas marcar um caminho no mapa, mas guiar e conduzir o perdido, seu servo, por meio dele.

Mesmo depois de mais de dez anos de casado, não tenho grandes posses ou uma herança considerável. Entretanto, como Davi, também sou enriquecido pelas atuações de Deus que garantem minha segurança e eterna felicidade. Assim como para o salmista, o Senhor também é minha porção da herança. Nada tenho de maior valor que meu Salvador. Talvez seja por isso que me identifiquei tanto com o v.6. Ele diz – e eu também – “linda herança é a minha” (nahalat shafrâ ‘alay).

Pr. Thomas Tronco