terça-feira, 17 de maio de 2011

A Dureza das Provações

Devido a problemas que tenho na coluna, tenho praticado natação três vezes por semana. Tem sido muito bom para mim. Normalmente eu entro na piscina com dores e saio sem, bem disposto para começar o dia de trabalho. Geralmente é assim, a não ser nos dias de teste físico. Nesses dias, tenho de nadar em sessões que são cronometradas. Para o meu estado físico, alguns desses períodos são intermináveis. Preciso de todo o meu esforço e determinação para não atender o impulso de parar no meio do teste. Ao completá-lo, parece que cheguei ao final de uma maratona. Contudo, nem dá tempo de comemorar, pois uma nova série é proposta e tenho de começar tudo de novo, vez após vez. Em algumas ocasiões, penso que não serei capaz de terminar e fico muito desanimado ao olhar o relógio que perece não andar. Cada chegada me faz crer que em algum momento terei de desistir.

Meu sofrimento permanece apenas enquanto cumpro esses testes físicos e, ao final, o máximo que pode me acontecer é estar mais cansado que o normal e com algumas dores. Davi, entretanto, passou por provações que o fizeram ficar desanimado e temeroso. O Salmo 60 foi escrito em uma dessas ocasiões. O título do salmo diz “Quando ele guerreou com Aram Naharaim e com Aram Zobá e quando Joabe voltou e feriu Edom no vale do sal, doze mil homens” (behatsôtô ’et ’aram naharayim we’et ’aram tsôvâ wayyashav yô’av wayyak ’et-’edôm begê’-melah shenêm ‘asar ’alef). Aram, a que o texto se refere, é a Síria. Trata-se de um território muito grande onde Zobá está na parte sul, fazendo fronteira com o limite Norte de Israel. Já Aram Naharaim, que significa Aram “entre os dois rios” – o Eufrates e o Tigre –, fica ao norte, na região conhecida como Mesopotâmia. Empreender uma guerra para estabelecer um domínio político sobre toda essa região e comandar a principal rota comercial entre a Mesopotâmia e o Egito não é uma tarefa de pequena monta. Essa era a missão que Davi empreendia com muito custo. Era também, além dos interesses comerciais, uma estratégia de defesa, já que o território sírio servia, para Israel, como Estado “tampão” no caso de uma invasão assíria.

Apesar do grande empreendimento, o texto de 2Samuel 8, que nos oferece o contexto histórico do salmo, mostra que Davi já tinha pacificado o sul ao subjugar os filisteus a sudoeste do território israelita e os moabitas a sudeste. Diante disso, ele podia investir militarmente ao norte do seu país. Mas, agindo com traição, o povo de Edom, ao sul de Judá, resolveu aproveitar a oportunidade para atacar seu vizinho cujos exércitos estavam a cerca de quinhentos quilômetros de distância. Isso obrigou Davi a enviar uma tropa para defender o país dos edomitas, tropa que parece ter tido dificuldades para repelir os invasores do Sul. Diante do cansaço da guerra, dos inúmeros inimigos e do constante risco de ser derrotado, Davi escreve o salmo, na forma de um diálogo com Deus, que ensina lições preciosas para o servo de Deus que passa por provações longas e duras.

A primeira lição é reconhecer que as provas não fogem do controle de Deus. O revés militar é imediatamente reconhecido por Davi como uma atuação de Deus (v.1): “Ó Deus, tu nos rejeitaste, nos desmantelaste, pois tu te enfureceste” (’elohîm zenahtanû peratstanû ’anafta). Entendendo que os rumos da guerra vêm do Senhor, Davi não se ocupa apenas dos preparativos e das táticas militares como se tudo dependesse dele. Em lugar disso, ele ora àquele que conduz a história, dizendo: “Restaura-nos!” (teshôvev lanû). Parece que o pensamento de Davi é que, se Deus dá a provação, somente ele pode retirá-la. Por hora, segundo o plano traçado por Deus para esse momento, Davi e seu exército estão abalados com as dificuldades em relação ao número e à ferocidade dos inimigos (v.3): “Fizeste teu povo ver dificuldades” (hir’îtâ ‘ammeka qashâ). Ao dizer isso, Davi não tem em mente apenas o ato de “ver” a dificuldade, mas de atravessá-la, de sofrê-la pessoalmente.

Segundo o salmista, o Senhor não só tinha um propósito em relação à história de Israel, ao reinado de Davi e às suas conquistas militares, como pessoalmente implementou tais propósitos. Contudo, o fez dentro dos parâmetros que previu para tratar seu povo sem fazê-lo perecer (v.4): “Aos que te temem deste uma bandeira para onde possam fugir do alcance do arco” (natattâ lîre’eyka nes lehitnôses miffenê qoshet). Davi não explica que tipo de bandeira ou “sinal” é esse a que se refere. Como não parece ser uma descrição literal de um refúgio sinalizado por uma bandeira – já que isso era algo que um exército sempre tinha e que não poderia se enquadrar em algo especialmente dado por Deus nesse revés em particular – a linguagem de Davi deve ser figurada e a “bandeira” poderia ser o próprio Senhor a quem ele, agora em dificuldades, recorre para encontrar abrigo. A palavra “bandeira” é a mesma que, com o sufixo possessivo, forma um dos nomes pelo qual Deus é conhecido: “Jeová nissi” (o Senhor é minha bandeira) – ver Êxodo 17.15. Essa interpretação é favorecida pela confiança que Davi tem de orar a Deus no versículo seguinte (v.5): “Liberta-nos pela tua destra e responde-nos para que os teus amados possam ser livres” (lema‘an yeholtsûn yedîdeyka hôshî‘â yemîneka wa‘aneniw). No final das contas, é muito claro, na mente do salmista, o domínio de Deus sobre a situação de Israel.

A segunda lição é saber que Deus conhece a hora de por fim às provações. Esse trecho (vv.6-8) está escrito na forma de uma resposta de Deus à primeira oração de Davi (vv.1-5). Pela pena do salmista, o Senhor garante que chegará o momento de ele, novamente, favorecer os israelitas. Discute-se se o conteúdo dos vv.6-8 é o registro de uma revelação divina a Davi ou se o salmista está apenas lançando mão da confiança dada pelas promessas do Senhor registradas nas Escrituras. De qualquer modo, Davi tem convicção de que o mau momento passará e que os inimigos serão subjugados. Ele escreve (v.6): “Deus, em sua santidade, disse: Eu exultarei, pois dividirei Siquém e medirei o vale de Sucote” (’elohîm diber beqodshô ’e‘lozâ ahalleqâ shekem we‘emeq sukôt ’amaded). Siquem está situada em Efraim, a oeste do Jordão, enquanto o vale do Sucote fica em Gade, a leste do Jordão. O significado desse texto parece ser que o Senhor confirmaria a posse aos israelitas da terra que lhes deu, tanto de um lado como de outro do rio Jordão.

Ele continua (v.7) e valoriza territórios como Gileade e Manasses (a leste do Jordão – Manasses também se estendia a oeste) e Efraim e Judá (a oeste do Jordão). Por outro lado, humilha as nações ao sul, nações estas que costumeiramente causavam problemas para Davi e seus súditos (v.8): “Moabe é o meu lavabo; sobre Edom jogarei a minha sandália; sobre a Filístia eu cantarei vitória” (mô’av sîr rahtsî ‘al-’edôm ’ashlîk na‘alî ‘alay peleshet hitro‘a‘î). Com isso, os israelitas podiam esperar o término dos confrontos pela subjugação dos inimigos. O próprio Senhor poria fim às provações.

A última lição é submeter-se inteiramente a Deus como o único que pode dar alívio. A partir do v.9 Davi volta a ser a voz do salmo e faz uma pergunta que revela sua incapacidade inicial de vencer os edomitas: “Quem me levará à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?” (mî yovilenî ‘îr matsôr mî nahanî ‘ad-’edôm). Tais perguntas mostram que o exército israelita, que tinha como meta tomar Edom e sua capital a fim de acabar com os conflitos, não teve êxito nesse intento. A razão de tal ineficácia é o fato de Deus não tê-los feito vitoriosos até então (v.10): “Acaso tu, ó Deus, não nos rejeitaste? Por isso, ó Deus, não sais com nossos exércitos” (halo’-’attâ ’elohîm zenahtanû welo’-tetse’ ’elohîm betsiv’ôteynû). Sabendo disso, em lugar de buscar outros recursos, Davi se volta inteiramente a Deus e suplica seu auxílio (v.11): “Socorra-nos do adversário, pois nulo é o socorro do homem” (havâ-lanû ‘ezrat mitsar weshawe’ teshû‘at ’adam). A submissão à direção e à vontade de Deus dá, então, segurança ao salmista de que eles sairão vencedores dessa intensa provação (v.12): “Em Deus nós faremos proezas, pois ele investirá contra nossos adversários” (be’lohîm na‘aseh-hayil wehû’ yabûs tsareynû).

O mesmo Deus de Davi, aquele que dá provações, que sabe em que medida dá-las e que se compadece dos servos sustentando-os e livrando-os, é o mesmo Deus de hoje, o Deus da igreja. Seus métodos e objetivos também são os mesmos. Ele nos ensina por meio das dificuldades, nunca nos abandona, nos lembra da sua constante presença e da necessidade que temos de depender dele e nos protege do mal. É disso que eu me lembro quando passo por lutas. E é por isso que eu continuo seguindo quando as forças dão mostras de que acabarão. Como na piscina, o cansaço vem, mas vez após vez completamos a prova com nosso Deus nos sustentando e nos impedindo de afundar.

Pr. Thomas Tronco

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Origami Gospel

Origami é uma palavra de origem japonesa. Oru significa “dobrar” e kami é “papel”. Assim, origami é a arte tradicional japonesa que, há séculos (desde 1600 AD), ensina as pessoas a dobrar papel.

Normalmente o papel escolhido para essa prática é quadrado e liso, pois isso facilita o manuseio e a obtenção do bom formato das dobraduras. Porém, no origami o que conta é a paciência e a habilidade em desenvolver desenhos e formas tanto simples (quando iniciantes) como complexas (para os mais experientes).

Com perseverança, concentração e paciência, típicas das culturas orientais, aves, árvores, flores e diversos objetos vão surgindo através das pequenas e inúmeras dobras. Essa prática é tão respeitada que, seguindo a tradição oral, muitos chegaram a atribuir poderes místicos a determinados origamis. Há, por exemplo, uma crença popularizada por Sadako Sasaki (vítima e sobrevivente da Bomba Atômica) de que quem fizer mil origamis da garça japonesa (Tsuru, “garça”) terá um desejo seu atendido.

Apesar de considerar essa prática muito interessante e ter material para isso, jamais consegui fazer um origami. Falta-me habilidade e paciência. O que me consola é saber que o mesmo acontece com muita gente. Contudo, quando se trata de questões de fé, muitos crentes são profissionais no que chamo de “origami gospel”. Como?! Bem, no origami comum o papel assume qualquer forma e aceita todo tipo de contorno que queremos lhe dar. No origami gospel algo parecido acontece. Muitos criam um deus dobrável que se submete à vontade do fiel, assumindo contornos de acordo com a conveniência de quem o manipula. Veja alguns exemplos:

  • O deus pitbull: Feroz, terrível e assustador.
  • O deus garçon: Existe apenas para nos servir.
  • O deus carteiro: Só serve para fazer entregas.
  • O deus criança: Fácil de agradar, de enganar e de iludir.
  • O deus chefe: Basta “bater o ponto” no domingo.
  • O deus flor: Depende de nós para não murchar.
  • O deus ioiô: Vai e vem em minhas mãos.

E por aí vai... O evangélico moderno, em sua ignorância e incredulidade, confecciona o seu deus conforme lhe apraz. Ele o aperta, dobra, vira, desdobra e muda o que não gostou. Então, depois de algum esforço... voilà: deus está prontinho. E o que é melhor: feito sob medida para a gente carregar no bolso.

Até mesmo os teólogos dos dias atuais confeccionam para si deuses nos padrões de origami. Do topo de sua soberba proclamam um deus formado por eles, com limites em sua sabedoria e cheio de imperfeições próprias de seres humanos.

Fico feliz de saber que o Deus a quem sirvo não foi moldado por ninguém. Ele é o Deus verdadeiro, o Deus bíblico. Seus contornos ele mesmo revelou e, por isso, sei que ele é autossuficiente, autoexistente, transcendente, imanente, único, trino, imutável, perfeito, santo, justo e poderoso. Ele não dá e nem deve satisfações às suas criaturas. Antes, dá ordens e toda a criação lhe obedece (Jó 42.2; Sl 115.3).

Alegro-me em crer num Deus assim e em pastorear uma igreja que crê da mesma forma, pois os que inventam seus deuses de dobradura são infelizes e estão enganados. Na verdade, não são crentes de fato, posto que não conhecem realmente a Cristo nem tampouco o Pai. É triste, mas o fato é que, na eternidade, diante dos portões do inferno, muitos descobrirão, apavorados, que acreditaram num ídolo ilusório, num deus de papel! Então, uma vez que rejeitaram a verdadeira fé em troca de mitos, passarão a eternidade sem Deus nenhum. É assim que será. Afinal, as chamas do inferno nunca se apagam e, como se sabe, papel pega fogo!

Pr. Marcos Samuel
Soli Deo gloria

A Condenação e Perseguição do Inocente

Um japonês chamado Ishimatsu Yoshida foi acusado de roubar e matar um turista em uma rua deserta. Duas testemunhas, reconhecendo-o no tribunal como autor do latrocínio, selaram seu destino. Apesar de enfaticamente se declarar inocente, ele enfrentou uma pena de 23 anos de prisão. Ao ser libertado, iniciou uma caçada às testemunhas que o acusaram. Em pouco tempo encontrou uma delas. Esta confessou o falso testemunho e revelou que o autor do crime era a outra testemunha. Ishimatsu passou mais um ano procurando o verdadeiro assassino até capturá-lo e fazê-lo confessar. A reportagem dizia que Ishimatsu entrou com um processo para reconhecer sua inocência, mas que, apesar disso, o que ele nunca conseguiu recuperar foram os 23 anos perdidos da sua vida.

Quem dera esse caso ser o único erro judicial e a única condenação indevida da história! Na verdade, muita gente inocente já pagou por crimes que não cometeu. Davi se queixa justamente disso no Salmo 59. Sua queixa é (v.4): “Sem que eu tenha culpa, eles se apressam e se dispõem [contra mim]” (belî-‘aôn yerûtsûn weyikônanû). O motivo da queixa não é difícil de entender, já que Davi fornece o contexto preciso por meio do título do salmo: “Quando Saul enviou [pessoas] para vigiar a casa [de Davi] a fim de matá-lo” (bishloah sha’ûl wayyishmerû ’et-habbayit lahamîtô).

Tais acontecimentos estão narrados em 1Samuel 19.11-18. O texto conta que Saul enviou homens à noite para vigiar a casa de Davi para que ele não fugisse e para que pudessem matá-no pela manhã. Mical, filha de Saul e esposa de Davi, ao saber do plano, ajudou Davi a fugir pela janela e colocou na cama uma estátua para simular a presença do marido. Ao amanhecer, os homens, por ordem de Saul, vieram buscar Davi. Mical ganhou algum tempo dizendo que Davi estava acamado por uma doença. Quando se descobriu a farsa, Davi já estava longe, e em segurança, na casa do profeta Samuel.

Tendo como pano de fundo essa história de traição e de desejo assassino, Davi compôs o cântico em uma estrutura que parece ter duas estrofes (vv.1-5 e 10-13) e dois refrões (vv.6-9 e 14-17). As mudanças temáticas marcam tais divisões e os refrões são fáceis de reconhecer devido à repetição de uma frase importante do contexto – o cerco noturno dos assassinos (vv.6,14). Entretanto, a música não é de muitas repetições. Ao contrário, ela apresenta um desenvolvimento tanto da história como dos sentimentos e convicções do salmista. Por isso, um modo interessante de analisar esse salmo é seguir seu raciocínio nas suas divisões.

Assim, a primeira estrofe contém um pedido de livramento divino por parte do inocente perseguido. A oração inicial do salmo é (v.1): “Livra-me dos meus inimigos, ó meu Deus, e ponha-me a salvo daqueles que se levantam contra mim” (hatsîlenî me’oyevay ’elohay mimitqômemay tesaggevenî). Além do pedido de livramento, Davi forma uma imagem interessante de tal proteção. O que é traduzido como “ponha-me a salvo” também pode ser entendido como um pedido para que Deus o levantasse e o colocasse em um lugar alto que não pudesse ser alcançado pelos agressores. É mais ou menos a figura de um pai levantando seu filho para que um cão raivoso não o possa ferir – deve-se levar em conta que a figura do ataque de cães raivosos é destacada no texto para se referir à ação dos assassinos. É claro que, com isso, está implícita a ideia da impotência e dependência do salmista como se ele fosse uma criança. Mas é assim mesmo que o servo de Deus deve se sentir ante o poder de Deus.

Além disso, há um perigo adicional para Davi. Os homens que o perseguiam (v.2) eram “assassinos” (’anshê damîm). Uma tradução literal para a qualificação dada por Davi a esses homens é “homens de sangues”, ou seja, homens que já derramaram o sangue de outras pessoas. E a tática usada por eles era a perseguição velada e traiçoeira (v.3): “Eis que eles ficaram de tocaia contra mim” (hinneh ’arvô lenafshî). Esse era o perigo que Davi corria. E tudo isso sem ter feito nada que merecesse tal tratamento, visto que Davi diz: “Homens fortes fazem cerco contra mim sem que eu tenha transgredido ou que eu tenha pecado, ó Senhor” (yagûrû ‘alay ‘azîm lo’-pish‘î welo’-hatta’tî yehwâ).

O primeiro refrão contém a confiança no poder de Deus apesar da fúria dos inimigos. Os dois refrãos iniciam dizendo (vv.6,14): “Eles se volvem durante a noite uivando como cães e rodeiam a cidade” (yashûvû la‘erev yehemû kakkalev wîsôvevû ‘îr). Apesar do símile com a figura dos cães, essa é uma descrição exata da tocaia armada pelos inimigos. Segundo Davi, tais homens estavam totalmente confiantes do sigilo a respeito dos seus planos, dizendo (v.7) entre eles mesmos “quem ouviu?” (mî shomea‘). Essa pergunta é um modo retórico de dizer que os planos continuavam secretos e efetivos. Contudo, a periculosidade dos adversários não consegue tirar a confiança de Davi no Senhor, principalmente depois de, em seu poder, ter Deus feito chegar aos ouvidos de Mical o plano que deveria ser secreto. Por isso, diz o salmista (v.8): “Mas tu rirá deles, ó Senhor” (we’attâ yehwâ tishhaq-lamô). A confiança de Davi é clara: o Senhor é mais poderoso que os poderosos e será vitorioso sobre eles. Diante disso, nenhuma outra declaração seria melhor para encerrar o refrão (v.9) que a afirmação “Deus é o meu alto refúgio” (’elohîm misgavvî).

A segunda estrofe contém o vislumbre da libertação do inocente e do castigo do ímpio. A confiança de Davi é tão firme que rapidamente evolui para a “esperança”. Isso significa que ele tem tanta convicção de que Deus é fiel e que irá socorrê-lo que ele já antevê a libertação e a derrota dos que o perseguem. Ele afirma (v.10): “O Deus a quem amo virá ao meu encontro; Deus me fará ver [a derrota] nos meus inimigos” (’elohê hasdiw yeqaddemenî ’elohîm yar’enî beshoreray). Confiado nessa certeza, Davi ora (v.13): “Destrua-os com ira, destrua-os para que eles sejam como nada e saibam que Deus é soberano em Jacó e até os confins da Terra” (kalleh behemâ kalleh we’ênemô weyede‘û kî-’elohîm moshel beya‘aqov le’afsê ha’arets).

O segundo refrão contém o louvor e o testemunho do inocente pela libertação de Deus. A confiança em Deus, munida da esperança firme e vida da libertação, não poderia levar Davi a outra atitude que não a gratidão a Deus e sua demonstração na forma de adoração. Assim, ele, mais uma vez, inicia o refrão falando do cerco da sua casa pelos inimigos e o contrapõe com sua atitude em resposta à situação (v.16): “Entretanto, eu cantarei sobre a tua força” (wa’anî ’ashîr ‘uzzeka).

Tendo dito isso, Davi faz um contraste muito bonito, poético e sugestivo no trecho em questão. Ele, que iniciou o refrão falando do cerco noturno, no meio das sombras, em uma atitude condizente com as trevas, faz o refrão dar uma virada como poucas. Ele diz: “Pela manhã eu exultarei pela tua bondade” (wa’aranen labboqer hasdeka). Se durante a noite havia perigo, de manhã já ocorreu a libertação. Se de noite reinava a maldade, pela manhã reina a graça e a benignidade do Senhor. Se as trevas dominam o coração dos perseguidores, um raio de luz de pura alegria e louvor brilha no coração do salmista tão logo amanheça o dia. Que melhor maneira encerrar o cântico, depois desse belo ápice, que Davi declarar a Deus o seu amor? Ele encerra (v.17) chamando novamente o Senhor de “Deus a quem eu amo” (’elohê hasdî).

Essa não é uma lição de poesia, apesar da beleza e de nos inspirar tremendamente. Também não é uma lição de gramática, apesar de nos fazer trabalhar com tantas figuras sugestivas e comunicativas. É, na verdade, uma lição a respeito de Deus e da sua soberania sobre tudo e sobre todos. Ninguém pode detê-lo ou intimidá-lo. Nenhum poder ou autoridade pode fazer frente àquele que reina sobre toda a criação. Por outro lado, é também uma lição sobre como os servos de Deus devem se portar nesse mundo.

A receita é sempre a mesma: quando o mundo mau se levanta para destruir o povo de Deus, este ora ao Senhor, confia na sua bondade e louva o seu nome, testemunhando sua bondade por toda parte. As circunstâncias podem variar, mas aquele “em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17) está sempre a postos para, mais uma vez, demonstrar seu amor por aqueles a quem chamou para compor o seu povo. Não importa se o mundo nos considera culpados de não viver sob seu regime dirigido pela carnalidade. Ainda que nos ameacem e persigam injustamente, como se fôssemos culpados, aquele que tem voz e poder em última instância, e que nos justificou por meio de Jesus Cristo, nunca há de nos abandonar ou nos perder dos seus braços.

Pr. Thomas Tronco

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Superior Tribunal de Justiça

Há pouco tempo, li uma história muito interessante. Era sobre um juiz que abriu uma sessão no seu tribunal dizendo às partes: “Cavalheiros, eu tenho em mãos dois cheques. Vocês podem chamá-los de propina. Um deles é do reclamado, no valor de 15 mil dólares. O outro, de 10 mil dólares, é do requerente. Diante disso, minha decisão é devolver 5 mil dólares ao reclamado e julgar o caso baseado apenas nos méritos”. Apesar dos risos que essa história tirou de mim, ela também me deixou pensativo: “Será que há muitos juízes que aceitam propina para decidir a favor de alguém? Será que há muitos governantes que vendem vantagens a pessoas e a grupos empresariais em troca de benefícios financeiros? Será que os escândalos que vemos nos jornais e na televisão são apenas a ponta de um grande iceberg?

Não sei a resposta exata para essas perguntas, apesar de ter bons palpites. Mas uma certeza eu tenho: essa prática não é nova. Davi sofreu com pessoas que, vendo a verdade e tendo plenas condições de agir com justiça, resolveram, por interesse próprio, favorecer a parte forte e promover a injustiça ao fraco e necessitado. O Salmo 58 é um apelo de Davi a Deus justamente por não encontrar nos homens a justiça que barraria o mal e que defenderia o inocente. O contexto de composição do salmo é tremendamente debatido. Possibilidades como a rebelião de Absalão e a atuação destruidora de seres demoníacos são aventadas por muitos estudiosos. Entretanto, o salmo não parece apresentar algo diferente de outros produzidos no período da perseguição de Saul a Davi. Na verdade, a reticência de Davi em tratar seu filho Absalão como inimigo, durante o golpe de estado que ele efetuou, faz com que as duras palavras contidas no Salmo 58 contra as autoridades injustas se encaixem melhor no período em que ele fugia de Saul.

Ao que tudo indica, Davi estava indignado com os feitos iníquos dos homens que assistiam o rei Saul. Todos eles conheciam Davi. Este, por ser genro do rei e comandante do seu exército, frequentava a corte real em Gibeá e convivia com todas as autoridades israelitas, tanto civis, como militares. É certo que tais homens conheciam o caráter de Davi, assim como jamais haviam testemunhado qualquer tipo de tramoia vinda dele no sentido de trair o rei e lhe usurpar o trono. Contudo, quando Davi poupa a vida de Saul, também lhe diz que ele não deveria dar ouvidos a pessoas que o difamavam injustamente: “Disse Davi a Saul: Por que dás tu ouvidos às palavras dos homens que dizem: Davi procura fazer-te mal?” (1Sm 24.9). Ao agirem assim, tais homens pioravam, por pura ambição, a situação que já era terrível entre Saul e seu genro Davi. Parece que é desses homens que Davi fala no Salmo 58. Sobre eles Davi se queixa ao Senhor e clama por uma justa vindicação. O salmo também mostra que, para que tal vingança exista, é necessário um processo de três etapas.
 
A primeira etapa é a realização da maldade pelos injustos. Davi inicia o salmo com duas perguntas (v.1): “Vocês realmente falam coisas justas, ó autoridades? Julgam os filhos dos homens com retidão?” (ha’umnam ’êlîm tsedeq tedaberûn mêsharîm tishpetô benê ’adam). Essas perguntas estão envoltas em ironia da parte do salmista, sendo classificadas como perguntas retóricas. Sendo assim, elas não são um tipo de questionamento, mas uma acusação de injustiça, de parcialidade e de manipulação da verdade por parte de homens que tinham condições – e obrigação – de fazerem o oposto. Parece que Davi se refere ao procedimento mentiroso dessas autoridades para fazer Saul crer que Davi era um traidor. A resposta, desprovida de ironia, é dada no v.2: “De fato, no coração eles elaboram iniquidades e suas mãos distribuem a violência na Terra” (’af-belev ‘ôlot tif‘alûn ba’arets hamas yedêkem tefallesûn).

A acusação de Davi não para por aí. Com ela, vem anexada uma explicação sobre o caráter desses homens (v.3): “Os ímpios se extraviaram desde o ventre materno; os que falam falsidades se desviaram desde o nascimento” (zorû resha‘îm merahem ta‘û mibbeten doverê kazav). Davi associa a maldade e a falsidade dos homens poderosos, que injustamente o perseguiam, à sua condição pecaminosa. Davi faz menção a essa mesma desventura do ser humano quando se refere ao seu próprio pecado no caso de Bate-Seba e Urias (Sl 51.5). A julgar pela gravidade do pecado confessado por Davi no Salmo 51, o fato de ele se referir nos mesmos termos ao pecado dessas autoridades, faz com que a acusação seja revestida de seriedade e de gravidade. No campo prático, o pecado com o qual nasceram – e que não foi tratado pelo perdão divino e pela graça transformadora do Senhor – mostra-se na forma de atitudes perigosas e destrutivas (v.4): “O veneno deles é semelhante ao veneno da serpente” (hamat-lamô kidmût hamat-nahash). Utilizando-se da mesma comparação – a serpente –, Davi os acusa de serem pessoas incorrigíveis, portadoras de corações fechados à verdade e ao arrependimento (vv.4,5): “Como uma cobra surda eles tapam seus ouvidos para não ouvirem a voz dos encantadores” (kemô-peten heresh ya’tem ’oznô ’asher lo’-yishma‘ leqôl melahashîm). Com isso, Davi quis dizer que é mais fácil um encantador domar uma serpente venenosa do que tais homens darem ouvidos à justiça.

Uma atuação malévola como a descrita por Davi certamente cria muito sofrimento nos alvos da maldade, os homens indefesos. Portanto, a segunda etapa é o clamor a Deus pelos injustiçados. O injustiçado, nesse caso, é o próprio salmista. Sofrendo com o mal, ele clama a Deus (v.6): “Ó Deus, quebra os dentes das suas bocas; arranca as presas de leões, ó Senhor” (’elohîm haras-shinnêmô bepîmô malte‘ôt kefîrîm netots yehwâ). Esse pedido violento, que continua nos vv.7-9, não condiz com o ânimo normal de Davi, visto sua piedade com os perseguidores e sua fidelidade a Deus (ver como exemplo 1Samuel 24). Assim, tais palavras duras certamente revelam o sofrimento que afligia o salmista. Tendo em vista que Davi, no Salmo 57.4, comparou as flechas e lanças dos inimigos com dentes de leões, seu clamor mostra que ele está nos limites da sua resistência contra a perseguição militar que está sofrendo. O que torna o clamor a Deus uma das etapas da punição do mal é o fato de Deus se importar com o fraco e dar ouvidos ao seu clamor (Dt 24.14,15). Ele não ignora o pecado contra os fracos e injustiçados.

A etapa final no processo que conduz à vingança contra o pecado dos opressores é a efetivação do castigo pelo justo Senhor. Apesar do momento de dor, Davi já vislumbra o momento em que Deus o livraria punindo os maus. Ele demonstrou tal esperança quando se absteve de resolver por si mesmo, injustamente, sua difícil situação: “Davi, porém, respondeu a Abisai: não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente? Acrescentou Davi: tão certo como vive o Senhor, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, seja morto” (1Sm 26.9-10). Prevendo tal libertação, o salmista, então, prenuncia sua alegria ao ver o Senhor agir (v.10): “O justo se alegrará quando vir a vingança” (yismah tsadîq kî-hazâ naqam). Essa declaração atesta a atuação de Deus em proteger os seus punindo os que lhe oprimem. A conclusão, contrária ao que pensa o injusto (Sl 53.1), é que (v.11) “certamente há um Deus que julga na Terra” (’ak yesh-’elohîm shoftîm ba’arets).

Para ambos os lados, opressores e oprimidos, há lições importantes. Paulo descreve um desses lados nos seguintes termos: “Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas” (Fp 3.18,19). As pessoas que se veem descritas nesses dizeres devem, olhando para o Salmo 58, saber que Deus não deixará tais atitudes impunes. Diante disso, devem se arrepender dos seus pecados e buscar o único que pode mudar não apenas tal destino, mas o próprio caráter dos que o buscam, fazendo-os “serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Quanto aos que já pertencem a Deus, pela fé em Cristo, e atravessam momentos difíceis como o de Davi, devem lembrar-se do seu futuro nos braços do Senhor quando ele separar uns para a vida eterna e outros para a vergonha eterna (Dn 12.2). De qualquer modo, devem eles aguardar o justo juízo daquele que não aceita subornos, nem julga com base em interesses espúrios: o maior de todos os juízes que se assenta no supremo tribunal.

Pr. Thomas Tronco

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Calvinistas Evangelizam? (Final)

Uma dramática mudança de opinião acerca do zelo evangelístico calvinista também ocorrerá no crítico da fé reformada que estudar a vida de Charles Haddon Spurgeon (1834-1892), notável pastor batista inglês conhecido como o “Príncipe dos Pregadores” (sobre a vida de Spurgeon, leia Gigantes da fé, de Franklin Ferreira, publicado pela Editora Vida, páginas 270 a 278).

Mesmo pertencendo a uma família de tradição protestante e sendo criado sob a forte influência de seu avô, um pastor congregacional, Spurgeon só se converteu realmente aos dezesseis anos de idade. Logo no início de sua vida cristã, ele mostrou grande preocupação pelas almas, dedicando-se à distribuição de folhetos, ao ensino na escola dominical e, eventualmente, à pregação. Aos poucos, porém, suas habilidades como comunicador da Palavra de Deus começaram a aflorar e Spurgeon viu sua fama de pregador crescer quando ainda era bem jovem.

Em 1852, ele se tornou pastor e, dois anos depois, assumiu o ministério na Capela Batista de New Park Street, em Londres. Seu desempenho ali como pregador e evangelista atraiu tantas pessoas que as ruas ao redor da igreja logo se tornaram intransitáveis por conta da multidão que afluía para ouvir o jovem pastor. Em pouco tempo, a igreja teve de se mudar para Newington, onde, em 1861, foi construído o Tabernáculo Metropolitano, que abrigava cerca de 12 mil pessoas. O local ficava repleto de homens e mulheres desejosos de ouvir os sermões ardentes de Spurgeon que anunciava o Evangelho com uma paixão e clareza nunca vistas em nenhum outro pregador daqueles dias.

Charles Spurgeon era calvinista convicto e seus sermões são prova cabal desse fato (no Brasil, os sermões de Spurgeon têm sido publicados especialmente pela Editora Fiel e pela PES: Publicações Evangélicas Selecionadas). Defendendo vigorosamente a doutrina da predestinação dos santos e a eleição incondicional, ele foi, ao mesmo tempo, um zeloso evangelista de renome mundial, pregando em diversos países da Europa, tanto em igrejas ou em amplos salões como ao ar livre. Ele pregava de oito a doze vezes por semana e chegou a falar para um público de mais de 23 mil pessoas, no Crystal Palace, em Londres.

Tantas foram as pregações de Spurgeon que, quando seus sermões passaram a ser publicados, a partir de 1855, a obra abrangeu 63 volumes, com mais de 3.500 homilias. Desejoso de que a mensagem de Cristo alcançasse o maior número possível de pessoas, Spurgeon se esforçava para que as publicações dos sermões fossem semanais, revisando ele próprio os textos antes que chegassem ao público. Como resultado dessa imensa obra evangelizadora, Spurgeon batizou cerca de 15 mil pessoas ao longo de quarenta anos de ministério pastoral. Mais tarde, seus sermões foram traduzidos para diversos idiomas, transformando vidas em todo o mundo.

Sempre preocupado com a divulgação da mensagem cristã, Spurgeon também começou um trabalho de treinamento de evangelistas e pastores, o que deu origem ao posteriormente chamado Spurgeon’s College. Essa instituição existe até hoje, adotando a mesma visão do seu fundador e formando evangelistas, missionários e pastores.

Charles Spurgeon adotava uma concepção ortodoxa das Sagradas Escrituras e, por isso, passou a ser fortemente criticado pelos membros liberais da União das Igrejas Batistas da Inglaterra da qual sua igreja fazia parte. Por causa disso, em 1887, ele se desligou da união e, sob severa oposição, viu sua saúde minguar. Spurgeon tinha gota, reumatismo e uma enfermidade crônica degenerativa incurável chamada Doença de Bright. Ele morreu aos 57 anos. Grandes cortejos foram realizados em Londres por ocasião de seu sepultamento no cemitério de Norwood. Naquele dia, 31 de janeiro de 1892, o Senhor tomou para si um dos maiores evangelistas de todos os tempos.

Quem conhece a vida e os sermões de Spurgeon vê quão grande é o impulso que a doutrina da eleição incondicional dá ao evangelismo. Nota-se que, encorajado pelo precioso ensino acerca da predestinação dos santos, os homens de Deus se lançam com maior empenho na busca daqueles que o Senhor escolheu e trazem para o seio da igreja os convertidos verdadeiros em quem a graça de Deus realmente atuou.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

A Quem Honra, Honra

O mundo conheceu grandes músicos e compositores. Um deles foi Franz Joseph Haydn. Próximo do final da sua vida, um grande concerto de nome A Criação foi apresentado em Viena. Com a saúde debilitada, Haydn foi levado ao concerto em uma cadeira de rodas. Quando a apresentação chegou à parte referente a Gênesis 1.3, que diz “e houve luz”, as vozes do coral cresceram em intensidade e encheram o teatro ao ponto de a plateia, absorta e maravilhada, ficar de pé e irromper em uma efusiva e crescente salva de palmas. O compositor Haydn, então, com muito esforço e sofrimento, levantou-se da sua cadeira agitando os braços e, em prantos, gritava para a multidão: “Não, não de mim, mas de lá – lá dos céus é que tudo vem!”. Então ele se sentou exausto e teve de ser retirado do grande salão.

Em Romanos 13.7, Paulo escreveu que, como servos de Deus, devemos cumprir todas as nossas responsabilidades, incluindo honrar quem deve ser honrado – o texto em questão é o título desse comentário. Costumeiramente, esse texto é utilizado para homenagear homens sem que pareça que se está omitindo a merecida honra devida a Deus. Entretanto, Davi faz uso de um raciocínio diferente desse ao escrever o Salmo 57. Justamente quando toma uma das atitudes humanas mais louváveis de toda a Bíblia, ele rende todo louvor e glória a Deus. Apesar de se encontrar em uma posição muito difícil e de ter produzido, na mesma situação, outros salmos em que se mostra perplexo e aflito, nesse episódio específico da sua vida ele compôs um salmo que destoa dos outros no sentido de demonstrar uma explosão de louvor a Deus.

O título do salmo nos dá o sitz im leben – essa expressão alemã significa “situação de vida” e é utilizada tecnicamente para se referir ao contexto por detrás de uma passagem das Escrituras. Davi escreveu o salmo “ao fugir ele da presença de Saul na caverna” (bebarhô miffenê-sha’ûl bamme‘arâ). Essa referência nos leva aos acontecimentos narrados em 1Samuel 24, que contam que Saul, recebendo a notícia de que Davi se escondia em En-Gedi, partiu em seu encalço. No caminho, Saul utilizou uma caverna como um tipo de banheiro sem saber que Davi e seus homens estavam escondidos justamente ali. Era a oportunidade perfeita de Davi matar Saul e de dar fim àquela perseguição injusta. Em lugar disso, Davi poupou o rei e deu provas da sua justiça e da sua fidelidade para com Deus e para com o rei, ainda que este buscasse tirar sua vida.

Esse é um episódio pelo qual Davi deve ter sido considerado um homem singularmente justo. Seus soldados devem ter se sentado com os filhos, nos dias futuros, e contado com que retidão Davi agiu para com o rei perverso. Na verdade, é uma situação tão especial que normalmente seria contada pelo seu próprio autor depois da conhecida introdução “modéstia à parte”. Entretanto, Davi não faz isso. Ao contrário, compõe um cântico no qual ele exulta de louvores a Deus rendendo a ele toda a responsabilidade pela libertação do servo que, sem ele, é incapaz de lidar com os perigos da vida.

O cântico tem duas estrofes (vv.1-4 e vv.6-10), cada uma delas seguida pelo refrão (vv.5 e 11) “seja elevado acima dos céus, ó Deus, e sobre toda a terra esteja a tua glória” (rûmâ ‘al-hashamayim ’elohîm ‘al kal-ha’arets kevôdeka). Essa é a mensagem do cântico. Este é o intento do salmo: render glórias a Deus. O que introduz e emoldura essa mensagem está em uma exposição crescente de louvor de Deus a partir da situação inicial de desespero do salmista até a gloriosa libertação vinda do Senhor. O modo como Deus transformou a sorte de Davi é a razão pela qual Deus é alvo dos mais profundos louvores do salmista.

Com tal intenção, Davi compõe a primeira estrofe de modo a, mesmo afirmando o auxílio divino, frisar o ataque feroz dos inimigos e o medo que isso lhe produziu. Ele demonstra isso ao iniciar com um clamor por misericórdia (v.1): “Tenha misericórdia de mim, ó Deus” (hannenî ’elohîm). A razão dessa busca é a confiança que Davi tem no Senhor: “Tenha misericórdia de mim, pois em ti eu busco refúgio” (hannenî kî beka hasayâ). É um interessante uso de palavras, já que Davi estava refugiado em uma caverna. Mesmo assim, ele mostra que sua confiança não se baseava na qualidade do esconderijo, mas na compaixão de Deus.

Diante da oração (v.2), Davi vislumbra o agir de Deus em seu favor protegendo-o (v.3): “Dos céus ele envia libertação a mim e afronta os meus opressores. Deus envia a sua misericórdia e a sua fidelidade” (yishlah mishamayim weyôshî‘enî heref sho’afî selâ yishlah ’elohîm hasdô wa’amittô). Apesar de tal confiança, a primeira estrofe termina com a ferocidade dos ataques dos perseguidores (v.4): “Estou cercado por leões, deitado ante aos que devoram os filhos dos homens, cujos dentes são lanças e flechas e cuja língua é uma espada afiada” (nafshî betôk leba’im ’eshkevâ lohatîm benê-’adam shinnêtem hanît wehatsîm herev haddâ). A figura é temível e é seguida pelo louvor a Deus no refrão do salmo. Essa primeira parte da música nos lembra que Deus deve ser louvado, ainda que os problemas cerquem os seus servos.

A segunda parte do salmo é diferente da primeira. O salmista, brevemente, volta a falar do ataque dos opressores e da sua frágil condição (v.6): “Eles prepararam redes para os meus pés. Minha alma sucumbiu” (reshet hekînû lif‘amay kafaf nafshî). Esse é um resumo da primeira estrofe. Entretanto, um novo elemento entre em cena. Há uma retribuição do mal. Os maus intentos dos inimigos voltam para eles mesmos. Eles são alvo da própria armadilha que armaram para Davi: “Eles abriram uma cova diante de mim, mas caíram dentro dela” (karû lefanay shîhâ naflû betôkah). Certamente, é uma referência ao modo como Saul, de caçador passou a presa ao alcance de Davi naquela caverna. Ele não foi ferido fisicamente, mas saber que estava nas mãos do jovem Davi foi como ser abatido por uma lança veloz. Diante do seu exército, sua maldade foi exposta em contraposição à bondade e retidão do salmista (1Sm 24.16,17). Foi uma derrota completa para Saul. Para Davi, foi grande libertação, tanto da perseguição militar como da degradação do seu nome pelos mentirosos que convenciam Saul de que seria traído por ele (1Sm 24.9). O resultado é que, ainda que continue fugindo, Davi se sente firmado e estabelecido (v.7): “Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme” (nakôn livvî ’elohîm nakôn livvî).

A partir de então, há uma explosão de louvor por parte de Davi. Apesar de não ser novidade o fato de Davi dar tanta importância ao louvor, na situação em que ele se encontrava e levando em conta os salmos que escreveu nessa situação, esse louvor enfático se torna notável. O louvor começa de maneira muito poética (v.8): “Acorda, alma minha! Acordem, harpa e lira! Eu acordarei a alvorada!” (‘ûrâ kevôdî ‘ûrâ hannevel wekinnôr ’a‘îrâ shahar). A personificação dos instrumentos musicais é apenas um modo de dizer que ele irá tocá-los como modo de expressar seu louvor ao Senhor. A oração “acordarei a alvorada” significa que ele cantaria e tocaria os instrumentos durante toda a noite, até ao amanhecer.

A próxima expressão do louvor crescente de Davi é o compromisso de fazê-lo ante os outros povos em forma de testemunho da glória do Deus de Israel (v.9): “Proclamarei a ti entre os povos, ó Senhor. Cantarei louvores a ti entre as nações” (’ôdeka ba‘ammîm ’adonay ’azammerka bal’ummîm). As atuações de Deus são assunto não apenas para Davi e seus seguidores, mas para todas as pessoas do mundo. A glória de Deus deve ser anunciada por toda parte. Apesar de Deus ser glorioso e louvável simplesmente por quem ele é, Davi tem em mente anunciar também o que Deus faz e o modo como faz (v.10): “Pois chega até os céus a tua misericórdia e até as nuvens a tua fidelidade” (kî-gadol ‘ad-shamayim hasdeka we‘ad-shehaqîm ’amitteka). Essa estrofe também é coroada pelo refrão que louva o nome do Senhor (v.11).

O feito de Davi naquela caverna em Judá é motivo até hoje de tomarmos o salmista como exemplo e de ensinarmos os mesmos valores com base na sua experiência. Lemos o texto e elogiamos o caráter de Davi. Entretanto, Davi não rendeu a si mesmo nenhum mérito. Com um louvor difícil de comparar, ele rende toda a glória a Deus. Se ouvisse a interpretação moderna do texto de Paulo em Romanos 13.7 para justificar longas homenagens a homens, massageando seus egos, Davi discordaria dessa prática. O próprio Paulo discordaria, pois quis dizer, com a frase “a quem honra, honra”, que os crentes devem honrar as autoridades, demonstrando-lhes respeito e obediência. O máximo que Davi faria – pelo que deveria ser imitado por nós, cristãos – é, utilizando-se do modo errôneo de interpretar o texto de Paulo, corrigir-lhe o sentido ao aplicá-lo à pessoa certa. Ele diria: “A quem honra, honra. A Deus toda a honra!”.

Pr. Thomas Tronco

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Entre a Cruz e a Espada

A fácil divulgação de informações por meio da Internet democratizou os famosos “quinze minutos de fama”. Pessoas desconhecidas, vindas dos mais distantes rincões, têm a oportunidade de deixarem sua marca por meio de textos, fotos e vídeos. Recentemente, um rapaz ficou famoso ao preso ser preso. Na verdade, não foi seu crime que o tornou famoso, mas as circunstâncias da sua prisão. Segundo explicou, em entrevista dada a uma emissora de televisão, ele tentou escapar da polícia pulando um muro. Nesse momento, recebeu uma pedrada, que o fez cair, e foi detido por um morador.

A fama do meliante se deu devido ao modo engraçado de narrar sua prisão. Ele contou que o morador, que era musculoso, o fez sofrer, nem tanto pela força que empregou para detê-lo, mas pelos seus odores corporais, os quais fizeram com que o criminoso implorasse para ser entregue à polícia. Essa história, que virou piada entre os internautas e lhes forneceu novos jargões, é uma lembrança de que há circunstâncias nas quais, independente do que se escolha, o resultado será penoso. Para situações como essas, existe, popularmente, a expressão “entre a cruz e a espada”, retirada da história de muitos homens que, no passado, tiveram de decidir entre a fé e a punição capital.

Outra história desse tipo, desprovida do humor da primeira, é a da fuga do rei Davi do seu rei e sogro, Saul, que procurava tirar-lhe a vida por causa do ciúme que tinha do jovem. Vários salmos foram escritos nesse ínterim. O Salmo 56 é um deles. Seu título nos ajuda a, facilmente, identificar o contexto: “Quando os filisteus o capturaram em Gate” (be’ehoz ’otô pelishtîm begat). Essa breve descrição nos remete à 1Samuel 21. Conta o texto que Davi, fugindo de Saul, conseguiu suprimentos no tabernáculo que ficava em Nobe, nos arredores de Jerusalém, e fugiu em direção à terra dos filisteus (1Sm 21.10), inimigos de Saul.

Davi devia estar realmente muito desesperado, pois sua fuga de Saul o colocava diante de outro risco. Davi buscou refúgio na cidade de Gate (1Sm 21.11), cidade de Golias, herói filisteu morto pelo próprio Davi. Na verdade, ele estava de posse da espada do gigante (1Sm 21.8,9). Reconhecido pelos filisteus, Davi teve de fingir que era doido, babando e arranhando a porta da cidade (1Sm 21.12,13). Normalmente, essa não seria uma técnica muito efetiva, pois é bem provável que não acreditassem nele ou que, se acreditassem, ainda assim quisessem matá-lo. Davi estava “entre a cruz e a espada”. O fato é que Deus o protegeu e fez com que o Aquis, rei de Gate, acreditasse na loucura de Davi e o dispensasse (1Sm 21.14,15). O Salmo 56, escrito depois disso, é uma declaração de fidelidade a Deus pela libertação maravilhosa.

No decorrer do salmo, algumas coisas são enfatizadas por meio da repetição. Tais ênfases rascunham para o leitor a história dos servos de Deus que são perseguidos pelos ímpios. Há pelo menos três etapas dessa história frisadas pela repetição de palavras na pena do salmista. A primeira etapa é a opressão. Davi se vê oprimido pelos inimigos que, nesse caso (v.1), são “muitos” (ravvîm). Trata-se dos inimigos israelitas, a serviço de Saul, e dos inimigos filisteus, oponentes dos israelitas. De ambos os lados Davi é oprimido e corre riscos. Por isso, ele se utiliza da ideia da “continuidade” tendo como intenção expressar o tamanho do problema que vive. Essa continuidade é expressa pelo uso repetido da expressão “todos os dias” (kal-hayyôm).

Ele diz (v.1): “Homens me oprimem todos os dias. Os opressores me pressionam” (she’afanî ’enôsh kal-hayyôm lohem yilhatsenî). Davi passou um bom tempo sem ter um dia sequer em que não se preocupasse com sua vida e que não buscasse guarida. O uso indistinto da palavra “homem” (’enôsh) – aqui traduzido no plural –, aponta para o fato de haver tanta gente atrás dele que não era possível identifica-los, nem fazer uma lista das pessoas que representavam risco para o salmista. Ele continua dizendo (v.2): “Meus adversários me perseguem todos os dias” (sha’afû shôreray kal-hayyôm). Essa perseguição também é vista, no salmo, sob a óptica das emoções do salmista no v.5: “Todos os dias eles infligem dor à minha condição” (kal-hayyôm devaray ye‘atsevû). A descrição da perseguição constante se completa no uso da palavra “todo” (kal) aplicada a outro objeto: “Todos os planos perversos deles são contra mim” (‘alay kal-mahshevotam lara‘). Essa situação está bem longe de ser cômoda ou tranquila.

A segunda etapa é a confiança. Ela é a resposta de Davi ao medo imposto pelos inimigos (v.3): “No dia que eu tiver medo, confiarei em ti” (yôm ’îra’ ’anî ’eleyka ’evtah). Para expressar melhor essa confiança e exaltá-la por meio do salmo, Davi cria uma repetição de frases que se parece muito com um tipo de refrão para o cântico. Trata-se do v.4 ecoando nos vv.10,11. Eles só não são exatamente iguais porque no v.10 há uma dupla repetição do início do v.4, substituindo, na segunda ocorrência, a palavra “Deus” (’elohîm) por “Javé” (yehwâ). Também porque a pergunta do final dessas orações contêm duas palavras para se referir aos homens, “carne” (basar) e “homem” (’adam), nos versículos 4 e 11, respectivamente.

Tais diferenças são mínimas diante da semelhança dos textos em questão. Assim, a confiança de Davi é expressa no refrão que diz (v.4): “Em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus eu confio;” (be’lohîm ’ahallel devarô be’lohîm batahtî). Ao enaltecer a palavra de Deus como alvo do louvor, o próprio Senhor é aquele quem recebe a exaltação – o louvor dirigido à “palavra” é uma sinédoque que vislumbra o todo, Deus, por meio de uma parte. Contudo, por meio dessa figura, Davi também oferece as promessas de Deus como razão pela qual o Senhor deve ser adorado por seus servos e pela qual eles podem nele confiar. A consequência natural, ainda que pareça contraditória diante das circunstâncias, é um inegável senso de segurança. Por isso, sem hipocrisia ou falso otimismo, Davi diz: “Nada temerei” (lô ’ira’).

A terceira etapa é a proteção. Os mesmo refrões terminam com frases parecidas. O v.4 diz: “O que fará a carne contra mim?” (mah-ya‘aseh basar lî). Longe de ser uma preocupação de ordem alimentar, o que Davi tem em mente é aclarado na frase correlata presente no final do v.11: “O que fará o homem contra mim?” (mah-ya‘aseh ’adam lî). Quando Davi diz “carne”, ele tem em mente os homens no sentido de serem mortais e impotentes diante do Deus imortal. Para Davi, Deus é eficiente em proteger seus servos. A primeira razão está em ele ser contrário aos pecadores, pelo que Davi ora com confiança (v.7): “Abata os povos na tua ira, ó Deus” (be’af ‘ammîm hôred ’elohîm). A presença da menção da “ira de Deus” nos lembra que ele não é indiferente ao mal e que assume uma postura contrária a ele.

A segunda razão para Davi esperar ser protegido pelo Senhor é o fato de ele ser favorável aos servos (v.9): “Isto eu sei: que Deus é por mim” (zeh-yada‘tî kî-’elohîm lî). Não há como ouvir essa declaração sem que se lembre do que diz Paulo ao versar sobre a soberania de Deus e a segurança do crente: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Essa proteção se dá, segundo conta o salmista, com todo cuidado e atenção da parte de Deus. Nenhuma das orações dos servos deixa de ser ouvida. Nenhum problema é desconsiderado. O Senhor vê, ouve e guarda tudo cuidadosamente (v.8): “Tu computaste o meu desterro. Puseste minhas lágrimas em teu odre. Acaso não estão no teu livro?” (nodî safartâ ’atâ sîmah dim‘atî beno’deka halo’ besifrateka). Nenhum sofrimento daqueles que pertencem ao Senhor lhe escapa. É como se ele registrasse cada um deles. Isso mostra que Deus não apenas protege os servos. Ele se relaciona intimamente com eles e está presente em suas vidas. A proteção é uma consequência do relacionamento entre Deus e o servo devido unicamente à graça do próprio Senhor.

É interessante ver como cada uma dessas etapas é feita por uma pessoa diferente e como as ações são compatíveis com a natureza e o caráter de cada uma delas. Assim, o perverso “oprime”, o servo “confia” e o Senhor “protege”. As atitudes dos perversos e do Senhor não podem ser controladas pelo servo. Ele apenas é alvo de tais ações. Entretanto, suas próprias atitudes são da sua responsabilidade e há um papel a ser cumprido. Um papel que é compatível com a confiança e a obediência que eles têm em Deus, assim como um filho que confia no pai ou como um soldado que confia no seu comandante. Para tanto, todos nós, servos de Deus, devemos imitar o salmista sendo “fiéis” e “agradecidos” (v.12): “Os teus votos estão sobre mim, ó Deus e eu os manterei. Darei graças a ti” (‘alay ’elohîm nedareyka ’ashallem tôdot lak). Tendo agido assim, não importa o tamanho dos músculos dos que tentem nos deter. Deus sempre será o nosso protetor amado.

Pr. Thomas Tronco