quinta-feira, 14 de abril de 2011

O Exército de Um Só Soldado

Uma das grandes diversões do brasileiro – e de pessoas de muitos países ao redor do mundo – é o futebol. Um dos pontos positivos do futebol que o faz tão aceito em todo mundo é o fato de ser bem flexível: pode ser jogado tanto em um campo especialmente preparado, com dois times de onze jogadores vestidos com uniformes próprios para o jogo, como pode ser jogado no meio da rua por meninos descalços que chutam uma bola de meia para dentro de um espaço demarcado por dois chinelos velhos.

Eu mesmo já fui adepto desse esporte em uma versão intermediária entre o sofisticado e o rústico: o futebol em quadras disputado por times de garotos “com” e “sem” camisa. Certa vez, em um grupo de meninos que formavam oito times, joguei contra uma equipe que, em menos de dois minutos, vencia e tirava o adversário. Isso era chato, pois eu jogava dois minutos e tinha de esperar mais seis times jogarem. Alguns times eram vencidos em menos de um minuto. Isso aconteceu à noite toda, até que, formando um tipo de “seleção”, reunimos os melhores jogadores dos “times-de-fora” para conseguir vencer aquele oponente tão duro e normalizar as partidas. Somente um tipo de dream team conseguiu salvar nossa noite de diversão.

O escritor do Salmo 48 testemunhou algo parecido, mas não no campo esportivo e, sim, no militar. O contexto parece nos levar a Judá, com sua capital, Jerusalém, liberta de uma coligação militar entre nações agressoras. Ao que tudo indica, houve uma virada no cenário das batalhas, pela mão protetora do Senhor, e o exército estrangeiro teve de bater em retirada. O resultado é que os israelitas não apenas comemoraram o desfecho vantajoso, como olharam para Deus como o responsável pela bênção.

Diante de tal realidade, não haveria melhor modo de iniciar o salmo do que dizendo (v.1): “O Senhor é grande e digno de louvor na cidade do nosso Deus, seu monte santo” (gadôl yehwâ ûmehullal me’od be‘îr ’elohênû har-qadshô). A “cidade do nosso Deus” é o mesmo lugar citado no v.2 como “monte Sião” (har-tsiyyôn) e “cidade do grande rei” (qiryat melek rav). Trata-se de Jerusalém, capital de Israel no tempo do reino unido sob as lideranças de Davi e de Salomão e, também, capital de Judá (reino do Sul), quando Israel foi divido em dois reinos (931 a.C.). Tal cidade foi protegida pelo Senhor de um ataque estrangeiro. Por isso, o salmista associa Deus com uma cidadela, uma fortaleza no interior de uma cidade fortificada que servia de refúgio quando as muralhas eram invadidas (v.3): “Deus, nos palácios dela, se faz conhecer como um refúgio no alto da cidade” (’elohîm be’armenôteiha nôda‘ lemisgav).

O resultado da proteção de Deus pode ser visto entre os vv.4-8. Em primeiro lugar (v.4), “os reis se reuniram e juntos partiram” (hammelakîm nô‘adû ‘avrû yahdaw). Percebendo que não eram páreo para o Senhor, os exércitos agressores desistiram da campanha militar e retornaram às suas terras. A proteção de Deus à sua cidade e ao seu povo foi superior ao poderio militar da liga de nações que declarou guerra a Judá. E, segundo expressa o salmista, tal retirada não foi tranquila, mas se deu às pressas, de modo que percebemos, pelo texto, as nações em fuga (v.5): “Assim que elas viram a situação, se desconcertaram, ficaram aterrorizadas e fugiram apressadamente” (hemmâ ra’û ken tamahû nivhalû nehpazû).

O motivo da fuga desenfreada foi, em primeiro lugar (v.6), que “o tremor ali os tomou” (re‘adâ ’ahazatam sham) e, ainda, porque tiveram grandes prejuízos (v.7): “Com um vento oriental ele destroçou os navios de Társis” (berûah qadîm teshavver ’oniyyôt tarshîsh). Antes que haja má compreensão, deve ser dito que não houve uma batalha naval. Aqui, o salmista fala de forma figurada, utilizando a ideia do naufrágio de navios vindos de Társis com grandes somas monetárias, a fim de representar as perdas que teve a coligação militar que atacou Judá – Társis era um local distante no litoral do mar Mediterrâneo (Jn 1.3; Sl 72.10; Is 23.6), possivelmente na Espanha, que era fonte de grandes riquezas, dentre elas metais preciosos como ouro e prata (1Rs 10.22; Is 60.9). Assim, os inimigos foram derrotados e fugiram com grandes perdas. Quanto a Jerusalém, foi protegida de forma espetacular, visto que (v.8) “Deus a estabelece para sempre” (’elohîm yekôneneha ‘ad-‘ôlam).

Este é o contexto em que o salmo foi escrito: o medo dos moradores de Jerusalém, diante de um forte ataque estrangeiro, cede lugar à exultação devido à incrível libertação vinda do Senhor. É claro que não há como ficar indiferente diante de uma situação como essa. Por isso, vemos que a atuação de Deus na proteção do seu povo produziu três reações nos seus servos, reações estas que costumam – e devem mesmo – se repetir em situações parecidas.

A primeira reação é contemplar a fidelidade de Deus. O salmista declara ao Senhor (v.9): “Meditamos, ó Deus, sobre a tua fidelidade no interior do teu Templo” (dimmînû ’elohîm hasdeka beqerev hêkaleka). A demonstração da fidelidade do Senhor que, indubitavelmente, já era conhecida do salmista em termos conceituais, leva-o a uma ação que ele chama de “meditação”. Longe de ter qualquer nuança transcendental moderna, trata-se de um ato em um contexto cultual, já que há a menção ao interior do Templo, representando os sacrifícios e ofertas feitas a Deus nesse local. Assim, a reflexão sobre a fidelidade do Senhor para com seu povo deve levar seus servos à reverente contemplação do Senhor, que, por sua vez, deve conduzi-lo à adoração pública e ao desejo de um conhecimento amplo e de um relacionamento pessoal.

A segunda reação é louvar a Deus por sua justiça. Segundo o escritor do salmo (v.10), “o teu louvor vai até os confins da Terra” (tehillateka ‘al-qatswê-’erets). Isso não acontece sem motivo. A razão para tanto é que, agindo Deus, “a tua mão direita é plena de justiça” (tsedeq mol’â yemîneka). Ao dizer “mão direita”, o escritor se refere não a um órgão anatômico, mas à atuação de Deus. O que ele quer dizer, de fato, é que tudo que o Senhor faz é justo e isso se dá por todo o mundo. A consequência natural é a constatação do louvor motivado pela justiça divina por parte dos seus beneficiários (v.11): “O monte Sião se alegra; as filhas de Judá rejubilam por causa das tuas justas decisões” (yismah har-tsiyyôn tagelenâ benôt yehûdâ lema‘an mishpateika).

E a terceira reação, por parte dos servos de Deus, é dar testemunho da grandeza de Deus. O salmista, então, convida os moradores de Jerusalém para fazer uma revista na cidade. Ele diz (v.12): “Rodeiem Sião” (sobû tsiyyôn). A razão é fazer um tipo de inventário (vv.12,13): “Contem as suas torres; prestem atenção na sua muralha; examinem o seu refúgio no alto da cidade” (sifrû migdaleiha shîtû livvekem lehêlâ passegû ’armenôteiha). Como não se sabe exatamente a época da composição do salmo, também é impossível saber as condições das fortificações de Jerusalém. Assim, dentre duas possibilidades, o salmista quer que tal inventário seja feito ou para notar o modo pelo qual o Senhor fortificou a cidade para protegê-la, ou para que se note que, apesar de fracas instalações, a libertação aconteceu – sem dúvida – pelas mãos do Senhor. A intenção é bem definida (vv.13,14): “A fim de relatar à geração seguinte que este é Deus, o nosso Deus eterno” (lema‘an tesafferû ledôr ’aharôn kî zeh ’elohîm ’elohênû ‘ôlam).

O Senhor protegeu Israel e o livrou de exércitos poderosos. Não é sem razão que é chamado, no v.8, de “Senhor dos exércitos” (yehwâ tseva’ôt). Entretanto, diferente da liga militar formada para combater Judá, com seus numerosos regimentos, o Senhor forma um exército de um só soldado que, contudo, prevalece contra tudo e contra todos. Ninguém tem mais motivos que seus servos para se alegrar e render a ele culto. O Senhor Todo-poderoso, em quem confiam seus servos, é um dream team de uma pessoa só. Louvemos e anunciemos pelo mundo o seu santo nome!

Pr. Thomas Tronco

quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Monopólio Sobre as Nações

Uma das grandes facilidades dos dias modernos se chama “cartão de crédito”. Curiosamente, é ele quem cria as maiores dificuldades financeiras das famílias de hoje em dia. Entretanto, utilizado com sabedoria e parcimônia, é uma ferramenta muito útil na administração dos gastos. Eu possuía dois cartões de crédito, cada um deles de um banco diferente. Com o tempo, um deles foi comprado por certo banco de destaque e, sem querer, virei cliente dele. Passaram-se mais alguns meses e meu outro cartão também foi comprado pelo mesmo banco. Hoje, meus dois cartões me fazem cliente de um banco que eu nunca procurei. É desse modo que os monopólios crescem e formam conglomerados comerciais e financeiros que chegam a ser mais poderosos que muitos países pequenos.

O Salmo 47 revela um tipo de monopólio mundial. É um monopólio bem amplo que não se limita ao segmento comercial, industrial ou financeiro. Ele engloba tudo o que existe em todas as nações. O dono desse monopólio não é uma empresa multinacional, nem um banco poderoso, mas o Deus Todo-poderoso, criador de tudo o que existe. A ele pertence toda a Terra (1Co 10.26), todas as riquezas (Ag 2.8) e todas as pessoas (Sl 24.1). Ele, que tem todo o poder (Jó 25.2), detém o controle sobre tudo e, por esse motivo, o salmista conclama pessoas do mundo inteiro para exaltar o dono de tudo (v.1): “Batam palmas, todos os povos; aclamem a Deus com gritos de exaltação” (kal-ha‘ammîm tiq‘û-kaf harî‘û le’lohîm beqôl rinnâ). A razão de tal convite vem a seguir (v.2): “Pois o Senhor altíssimo é tremendo, grande rei sobre toda a Terra” (kî-yehwâ ‘elyôn nôra’ melek gadôl ‘al-kal-ha'arets).

O convite ao louvor é efusivo e enfático, tanto quanto é poderoso aquele que deve ser louvado por todos (v.6): “Façam músicas a Deus, cantem louvores; façam canções ao nosso Rei, cantem louvores” (zammerû ‘elohîm zammerû zammerû lemalkenû zammerû). Apesar de, na Língua Portuguesa, por uma questão de estilo, a mesma palavra ser traduzida de formas sinônimas, mas diferentes, o v.6, no texto hebraico, possui quatro ordens idênticas: “Cantem louvores” (zammerû – vide transliteração acima referente ao v.6). Essa intensa repetição não revela pobreza de estilo, mas uma ênfase na necessidade de os servos de Deus glorificarem seu nome publicamente. É para isso que o salmista convida seus leitores e ouvintes.

A primeira esfera do domínio do “grande rei sobre toda a Terra” é a nação de Israel. O Senhor, em sua soberania, elegeu Israel a fim de lhe dar um privilégio especial entre os outros povos do mundo (v.4): “Ele escolheu para nós a nossa herança, a exaltação de Jacó, a quem ama” (yivhar-lanû ’et-nahalatenû ’et ge’ôn ya‘aqôv ’asher-’ahev). O resultado de tal eleição foi que ele deu a Israel uma terra de onde, para tanto, foram desarraigadas outras nações. Além disso, colocou Israel, nos dias do salmista, em uma função de liderança política, conforme revela o salmo (v.3): “Ele nos submeteu os povos e colocou as nações sob os nossos pés” (yadber ‘ammîm tahtênû ûle’ummîm tahat raglênû). Eis a razão pela qual todos os israelitas são chamados a louvar a Deus com todos os seus recursos. E foi de um modo compatível com essas inegáveis vantagens que eles responderam à bênção dada por Deus (v.5): “Deus se elevou entre gritos de vitória; o Senhor, com som de trombeta” (‘alâ ’elohîm bitrû‘â yehwâ beqôl shôfar). “Elevar-se” aqui faz alusão a uma entronização. É a figura de um rei assumindo seu trono em meio à ruidosa e efusiva comemoração popular.

Dá para entender muito bem a alegria e o louvor dos israelitas. Entretanto, as nações, sob essa primeira óptica, parecem ser relegadas a um plano inferior nos decretos e nos cuidados de Deus. Que motivos, então, elas teriam para louvar o Senhor? Se Deus tratou Israel de modo especial, por que os outros povos deveriam cantar louvores àquele a quem os israelitas chamam (v.6) de “nosso rei” (malkenû)? Porém, vale lembrar que o Salmo 47 não apresenta como foco do louvor o “Deus de Israel”, mas o “grande rei sobre toda a Terra”. Isso é enfatizado na segunda parte do salmo. Aliás, a parte que se dirige em especial às nações do mundo, começa dizendo (v.7): “Pois Deus é rei de toda a Terra” (kî melek kal-ha’arets ’elohîm). Assim, o salmista reforça seu convite aos povos que não são israelitas, dizendo: “Cantem poemas contemplativos” (zammerû maskîl).

Como bom rei (v.8), “Deus reina sobre os povos” (malak ’elohîm ’al-gôyim). Por essa causa, tais povos se relacionam com ele como seu rei pessoal. Deus não é, para eles, um déspota tirano. Na verdade, Deus é tão rei das nações do mundo quanto o é em relação à nação de Israel. A submissão a Deus, tanto dos povos, como dos israelitas, os torna, juntos, súditos do mesmo rei. O resultado é que pessoas de todas as nações participam do louvor que Israel encabeça (v.9): “Os nobres das nações se ajuntam, povo do Deus de Abraão, visto que os escudos da Terra pertencem a Deus” (nedîbê ‘ammîm ne’esafû ‘am ’elohê ’avraham kî le’lohîm maginneh-’erets). Tal ajuntamento de nações, nomeadas também de “escudos”, a fim de louvar a Deus, reúne um grupo chamado pelo salmista de “povo do Deus de Abraão”. A primeira notoriedade é ver nações de todo mundo, ao se submeterem a Deus, serem chamados de “povo de Deus”. Entretanto, precisamos notar a menção a Abraão a fim de identificar o Senhor. O Deus das nações é o “Deus de Abraão”, o pai da nação israelita.

Essa aparente contradição se revolve diante da aliança que Deus fez com o patriarca. Ao lhe prometer uma descendência numerosa (Gn 12.1-3) e uma terra onde seus descendentes habitariam (Gn 13.14,15; 15.18,19), Deus também prometeu benção, por meio de Abraão, não somente para Israel, mas para pessoas de todas as nações: “Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da Terra” (Gn 12.3). Essa aliança, chamada “abraâmica”, previu bênçãos para todos os povos, israelitas e gentios, por meio de Abraão, ao que Paulo assim ressalta: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos. De modo que os da fé são abençoados com o crente Abraão” (Gl 3.8,9). É claro que se pode perguntar o que Abraão teria de especial para abençoar tanta gente. A isso, Paulo responde identificando a fonte da bênção como o descendente ilustre de Abraão, o Senhor Jesus: “Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo” (Gl 3.16).

A obra de salvação realizada por Jesus na cruz beneficia, independente da nação e da etnia (Cl 3.11), todos os que nele crêem: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Deste modo, rei sobre toda a Terra, o Senhor dispõe a história como lhe apraz (Ef 1.11). Escolheu Israel para ser seu povo particular, por meio de quem traria à humanidade o Deus eterno, Jesus Cristo (Rm 9.4,5). Aprouve-lhe, diante da incredulidade dos israelitas, afastá-los do foco da mediação da sua graça na Terra, fazendo com que crentes de outros povos assumissem tal função e recepção da graça (Rm 11.11; 1Pe 2.9 cf. Ex 19.5,6) – apesar de reservar uma parte dos israelitas para continuar neles, nesse tempo, sua atividade graciosa (Rm 11.2-5). E, um dia, aproximará novamente Israel a si e cumprirá todas as promessas que fez aos seus pais (Rm 11.15,24).

Eis aí um motivo para pessoas de todas as nações louvarem a Deus. Ele é rei, não apenas de direito, mas também de fato. Ele controla a história, tanto em relação aos grandes rumos das nações, como em termos de detalhes da vida particular de cada pessoa. Tamanho controle, poder e majestade, deve nos tocar como pessoas que observam tais qualidades em meio a grande admiração e reverência. Tal visão da glória divina nos faz, sem dúvida, ouvir e atender ao convite do salmista, ainda que o tenha feito há tanto tempo atrás. Para nós, que servimos a Deus e nos admiramos de ver seu poder nos rodear, o contive é tremendamente atual e relevante. A visão do monopólio de Deus sobre o controle das nações assim nos chama (v.7): “Pois Deus é rei de toda a Terra; cantem poemas contemplativos” (kî melek kal-ha’arets ’elohîm zammerû maskîl).

Pr. Thomas Tronco

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Para Onde Caminha a Igreja Brasileira

Espanta-me nos debates teológicos recentes a falta de referências à Escritura. Alguns escritores propõem revisões radicais e, na maioria das vezes, em ruptura com a tradição cristã na doutrina de Deus e da salvação sem a menor preocupação em remeter seus leitores (ou, pelo menos, suas tribos ou guetos) para a Escritura – que, pelo menos em anos recentes, era tomada como a incondicional Palavra de Deus por aqueles que se identificavam como cristãos. Mesmo debates básicos, como sobre aspectos da ética cristã, são pautados não mais pela Escritura, mas pela mera opinião pessoal ou, no melhor espírito de manada, por seguir cegamente a opinião do líder. Vai-se assumindo que a Escritura pode até ser um livro importante, uma coletânea de bons conselhos, ou mesmo que contenha uma mensagem vagamente piedosa em meio a histórias de guerras, traições e matanças, mas que, finalmente, por meio de nossa razão ou intuição, podemos alcançar e descobrir Deus acima e além da Escritura.

Isso não é novo. É o mesmo esforço religioso e idolátrico presente na construção da torre de Babel. E o relato bíblico é claro: Deus despreza a ação religiosa, bagunçando-a e repelindo-a, posto ela ser somente isto: esforço e idolatria. Mas, para os cristãos, quando as Escrituras falam, é Deus mesmo quem fala, e fala a nós. Deus dixit! Dominus dixit! E nas Escrituras aprendemos que, do começo ao fim, é o Senhor Deus Todo-poderoso quem busca os seus, por pura misericórdia, em Cristo Jesus.

Antigamente, os fundamentalistas usavam a Escritura como texto-prova (dicta probantia). Podiam praticar uma hermenêutica literalista ou ingênua. Mas havia uma genuína preocupação em citar o texto bíblico, de remeter seus ensinos para a Escritura. Hoje, nem isso. De um lado, a invasão dos métodos críticos na interpretação da Escritura supostamente tornou sem razão afirmar algo a partir das Escrituras, já que esta, para muitos dos que seguem tais metodologias – não é mais inspirada, mas mero produto humano. Do outro lado, as supostas novas revelações ligadas aos bispos e apóstolos neopentecostais tornaram a Escritura um mero acessório em suas comunidades. Por isso, no âmbito eclesiástico, basta unir alguns chavões piedosos à linguagem religiosa e qualquer ideia passará facilmente por “cristã”. E os fiéis a seguem, sem nem mesmo se preocuparem em examinar “as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim” (Atos 17.11). A nobreza foi perdida. Por isso, o que se tem é o ressurgimento do velho gnosticismo, mais uma vez tentando se parecer com o cristianismo. Mas gnosticismo não é cristianismo.

Na medida em que a igreja brasileira loucamente tenta colocar de lado o “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível” (1Tm 6.15-16), uma nova casta sacerdotal vai surgindo, com seus apóstolos e bispos endinheirados, e com certos eruditos que constantemente precisam apelar à falácia do argumento magister dixit, enquanto se agarraram às teorias críticas do século 19 como se fossem a última moda teológica, todos igualmente caricatos e bufões. E vive-se o absurdo em que abandonar a Escritura, desprezar a igreja, transformar Jesus num curandeiro ou mestre inofensivo é ser de vanguarda, mas qualquer crítica feita a essa nova classe sacerdotal, grandemente responsável por essa doença, equivale à blasfêmia, atraindo a ira e a revolta de seus cegos seguidores, que se juntam em correntes de ódio.

E nisso novas ideias tentam tomar o lugar da reta doutrina, do puro evangelho – podem ser o pelagianismo, a mensagem da prosperidade, o teísmo aberto ou o marxismo cultural, que tomou de assalto todas as esferas da sociedade, que anseia por inaugurar um suposto milênio na Terra, a utopia totalitária do “outro mundo possível”. Tristemente, alguns cometem a alucinada infâmia de tentar misturar a absoluta Palavra de Deus em Jesus Cristo com uma ideologia corrupta e corruptora, o sistema de ideias mais assassino da história. Em sua loucura, todos esses pervertem a mensagem cristã, seguindo não mais o evangelho, mas correndo atrás de outro tipo de anúncio (ετερον εuαγγέλιον), mera perversão ou caricatura, não mais a boa-nova da salvação de Deus em Cristo, que justifica, redime, reconcilia e adota ímpios pela fé somente, regenerando-os por meio da obra do Espírito Santo. A mensagem para esses que abandonaram a pura Palavra de Deus é: “Ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gl 1.8-9).

Tristemente, o veredito de Bonhoeffer sobre o cristianismo nos Estados Unidos do fim da década de 1930 descreve com exatidão os evangélicos no Brasil:

Deus não concedeu ao cristianismo americano nenhuma reforma. Ele lhe concedeu vigorosos pregadores reavivalistas, pastores e teólogos, mas nenhuma reforma da igreja de Jesus Cristo por meio da Palavra de Deus. Qualquer coisa das igrejas da Reforma que chegou à América ou está em exclusão consciente e afastada da vida geral da igreja ou foi vítima do protestantismo sem reforma… A teologia americana e a igreja americana como um todo nunca foram capazes de compreender o significado da “censura” pela Palavra de Deus e tudo o que isso significa. Do primeiro ao último, eles não entendem que a “censura” de Deus toca até mesmo a religião, o cristianismo da igreja e a santificação dos cristãos, bem como que Deus fundou sua igreja para além da religião e para além da moralidade. Um sintoma disso é a adesão geral à teologia natural. Na teologia americana, o cristianismo ainda é essencialmente religião e moralidade. Por causa disso, a pessoa e a obra de Cristo, na teologia, vão permanecer em segundo plano e, por longo tempo, ficar incompreendidas, porque não são reconhecidas como o único fundamento do julgamento e do perdão radical. A principal tarefa na atualidade é o diálogo entre o protestantismo sem reforma e as igrejas da reforma. [Dietrich Bonhoeffer, Protestantism without the Reformation, em Edwin H. Robertson (org.), No Rusty Swords: Letters, Lectures and Notes, 1928-1936 (Londres: Collins, 1965), p. 92-118.]

A crítica desse mártir sobre o cristianismo nos Estados Unidos está essencialmente correta e se aplica integralmente a nós, hoje, no Brasil. Em resumo, para grande parte dos evangélicos brasileiros, o cristianismo é essencialmente sobre o que se faz para Deus. E é justamente nesse ponto que rompemos totalmente com a fé bíblica redescoberta na Reforma, pois esta enfatiza e ensina somente o que Deus faz por nós por meio do Cristo crucificado, dando prioridade à graça livre e soberana, agindo em meio ao nosso pecado, vício e escravidão existencial, redimindo-nos e tornando-nos novas criaturas. A mensagem do evangelho não é um recurso para melhorar nossa autoestima ou para nos ajudar a ascender socialmente, ou fazer a igreja crescer em cinco passos ou qualquer outra coisa desse gênero; é sobre ouvir e crer na mensagem revelada na Escritura sobre a graça de Deus em Cristo crucificado; é sobre nossa morte e ressurreição, nossa morte e ressurreição diárias, enquanto aguardamos novos céus e nova Terra.

Pr. Franklin Ferreira

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Segurança no Meio do Caos

Sou um motorista bastante cauteloso. Não costumo correr, nem me arriscar nas estradas. Isso não quer dizer que eu não goste de velocidade. Na verdade, tenho certa predileção por competições em que a velocidade é o astro principal. Gosto de ver corridas de carros, motos, caminhões e até aquelas competições malucas de aviões traçando um percurso perigoso no menor tempo possível. Infelizmente, sempre que há velocidade, há junto acidentes, muitos dos quais têm desfechos fatais.

A fim de diminuir as mortes em tais acidentes, os engenheiros têm desenvolvido sistemas de segurança cada vez mais sofisticados e resistentes. Um deles é a “célula de sobrevivência”. Trata-se de um invólucro que envolve o assento do piloto e seu próprio ocupante, cuja função é, em caso de acidente, manter intacto seu conteúdo, ainda que todo o exterior do veículo seja completamente destruído. Certa vez, assistindo a uma corrida de lanchas, vi uma delas se despedaçar no mar a cerca de 400 km por hora. Os restos da lancha viravam e reviravam batendo com força impressionante na superfície da água a ponto de me fazer perder as esperanças de ver o piloto vivo. Contudo, na imagem em câmara lenta, deu para notar que, apesar de toda a “turbulência” do impacto, a célula de sobrevivência fora destacada do veículo e, mesmo indo ao fundo d’água, manteve a vida do piloto. Uma equipe de resgate içou a cápsula do fundo do mar e o piloto saiu dela andando e acenando. Que susto!

Uma situação de “turbulência” intensa parece ser o pano de fundo do Salmo 46. Ao que tudo indica, a cidade em que o salmista estava permanecia sitiada e sob violentos ataques de um exército invasor. A iminência do rompimento da muralha principal era o que aterrorizava os defensores da cidade e os moradores indefesos. Sua maior necessidade era a manutenção dos reforços da muralha e um refúgio dentro da cidade, caso o pior ocorresse.

Apesar da situação caótica, o salmo é tremendamente encorajador. Na verdade, ele é um grito de confiança e esperança no poder de Deus que, para o salmista, é indubitavelmente superior aos mais poderosos exércitos dos homens. Enquanto o salmista parece viver uma situação que nos faria esperar um salmo de lamento e de desespero, o que encontramos é uma ode à fé no Deus que abriga os que lhe pertencem durante os piores males. Mesmo com a subjetividade da fé, ela se torna bastante palpável e mensurável quando olhamos as circunstâncias nas quais ela floresce.

O v.1 traz a primeira declaração da fé do salmista: “Deus, para nós, é refúgio e fortaleza” (’elohîm lanû mahaseh wa‘oz). A escolha de palavras não é casual. A necessidade do escritor era uma cidade que lhe servisse de refúgio por meio de um muro forte. Entretanto, a ineficácia da cidade, para promover sua segurança a longo prazo, faz com que ele compare Deus a uma cidade que nunca sofreria o que seu refúgio atual vinha sofrendo. A razão de tal necessidade é, possivelmente, um violento ataque que recebem de um forte inimigo, a julgar pelas circunstâncias vislumbradas pelo escritor nas quais Deus ainda lhe seria o protetor.

Os vv.2,3 trazem quatro situações nas quais o salmista afirma que não teria medo por causa da presença e do cuidado de Deus: “Na alteração de terra” (behamîr ’arets); “no agito dos montes no coração dos mares” (bemôt harîm belev yammîm); “ao se agitarem e espumarem as águas” (yehemû yehmerû mêmayw); e “tremerem furiosamente os montes” (yir‘ashô-harîm bega’awatô). Trata-se de calamidades naturais como terremotos, tsunamis e enchentes, todos com potencial destrutivo ilimitado. A “ênfase” faz parte dessa descrição caótica. Ataques militares muito violentos devem ter motivado tais figuras. Por isso, a confiança do salmista é expressa em termos de fortificações da cidade e da capacidade de ela proteger seus moradores. É desse modo que o confiante escritor vê o Senhor.

O v.4 parece oferecer outra nuance do sofrimento do salmista e do seu povo: falta de água. Era comum, como tática de cerco, cortar o suprimento de água da cidade sitiada, às vezes até mesmo mudando o curso do rio. Com isso, ou a cidade se rendia ou morria de sede. Em ambos os casos, o exército invasor vencia. A menção de um rio, pelo salmista, é bastante sugestiva nesse sentido (v.4): “Há um rio cujo canal alegra a cidade de Deus” (nahar pelagayw yesammehû ‘îr-’elohîm). Ao comparar a presença e a proteção de Deus com uma cidade atravessada por um rio, o salmo pode revelar a privação e a necessidade de água por parte dos sitiados, além do seu enorme sofrimento e tristeza pela sede que os consome. Nesse caso, a confiança do salmista está na atuação de Deus sobre as nações, fazendo-as tremer diante do seu poder (v.6): “Os povos se agitam, os reinos tremem, ele levanta a sua voz, a terra estremece” (hamû gôyim matû mamlakôt natan beqôlô tamûg ’arets).

A partir daí (v.7), o salmista produz uma declaração que é repetida no final do salmo: “O Senhor dos exércitos está conosco; refúgio para nós é o Deus de Jacó” (yehwâ tseva’ôt ‘immanû misgav-lanû ’elohê ya‘aqov). Parece ser um tipo de eco do primeiro versículo. Mas, enquanto a palavra traduzida por “refúgio” no v.1 (mahaseh) é sinônimo de “fortaleza” e pode, também, significar “defesa”, “guarida” e “amparo”, a palavra traduzida por “refúgio” presente nos vv.7,11 (misgav) significa “abrigo alto”, ou seja, uma cidadela. Esta nada mais é que uma fortaleza dentro da fortaleza. Assim, caso a cidade fosse invadida, havia outra muralha em uma posição mais alta para proteger os moradores que perderam a primeira muralha. Para o escritor do Salmo 46, Deus é como uma dessas cidadelas que, mesmo diante da queda dos muros da cidade, continua protegendo o seu povo.

Ataques violentos, sede, medo, tristeza e caos não conseguem tirar a confiança do salmista. Em lugar disso, ele passa a encorajar seus pares por meio da lembrança de quem Deus é e das coisas que fez no passado. Ele faz um convite aos aflitos (v.8): “Venham e vejam” (lekû-hazû). Outras vezes, convites como esse são feitos na Bíblia. Apesar de usarem palavras diferentes – e até idiomas diferentes –, o convite normalmente tem como pano de fundo a manifestação de Deus, como, por exemplo: “Vinde e vede as obras de Deus: tremendos feitos para com os filhos dos homens!” (Sl 66.5; ver também Jo 1.39; 4.29). O Salmo 46 não é diferente. Nesse caso, o que deve ser observado pelos homens é “a obra do Senhor, pela qual trouxe desolações à Terra” (mif‘alôt yehwâ ’asher-sam shammôt ba’arets).

Tendo isso em mente, o salmista usa seu melhor argumento para trazer paz ao coração dos israelitas em tempos de uma guerra atroz. Ele diz que nenhuma guerra há quando Deus ordena que ela cesse (v.9): “Ele é aquele que faz pararem as guerras até a extremidade da Terra, que quebra o arco e destrói as lanças e que queima no fogo os carros” (mashbît milhamôt ‘ad-qetseh há’arets qeshet yeshavver weqitsets hanît ‘agalôt yisrof ba’esh). Isso é tudo que o povo sob ataque desejava e que somente Deus podia conceder. Sabendo disso, o v.10 é escrito na forma de um alento vindo diretamente de Deus, aquele que pode e quer proteger os seus: “Descansem e saibam que eu sou Deus” (harpû ûde‘û kî-’anokî ’elohîm).

Diante da situação tão aterradora em que o salmista vivia e da confiança inabalável que declarava, somente duas situações são compatíveis: a existência de homem inconsequente ou iludido, que não liga para o que está prestes a ocorrer, ou a presença de um Deus Todo-poderoso que ama tanto seus filhos que se importa com seus destinos e com o sofrimento que atravessam. Na verdade, é esse o Deus que a Escritura toda apresenta: o redentor e protetor daqueles a quem ama e recebe como filhos. Por isso, a confiança nele não é ilusória; nunca é inútil; jamais é infundada. Na pior situação de caos que possamos atravessar, ele é o refúgio, ele é a cidadela, ele é nossa célula de sobrevivência.

Pr. Thomas Tronco

O Casamento dos Sonhos

Tenho um grande amigo que é pastor. Quando solteiro, ele pastoreava um grupo de jovens em uma igreja batista. Era um grupo muito animado. Como pastor e ovelhas se davam muito bem, foram efusivas as comemorações por ocasião do casamento do meu amigo. O grupo de jovens começou a demonstrar sua alegria por ver seu pastor feliz com o casamento dando-lhe dois pinguins de geladeira que rendem risos até hoje. Entretanto, o mais interessante foi, durante a cerimônia, o estouro de uma quantidade enorme de fogos bem no momento em que a noiva disse “sim”. Foi um momento de descontração. O tom solene exigido pela cerimônia foi, indubitavelmente, marcado pela demonstração de alegria verdadeira dos jovens da igreja por causa do seu pastor. Na verdade, toda a igreja estava feliz naquele momento.

Esse não foi o único casamento da história que gerou grande alegria nas pessoas ao redor. O Salmo 45 é uma poesia cantada em homenagem a um rei magnífico que desposaria uma mulher privilegiada. Ele é, conforme diz seu título, “uma canção de amor” (sir-yedîdot). O escritor dedica o salmo ao rei (v.1) e se declara um “escriba habilidoso”, ou um “hábil escritor” (sofer mahîr). Quando alguém faz a si mesmo um elogio desse tipo, ou se trata de alguém vaidoso, que não conhece suas limitações, ou de alguém cujo reconhecimento amplo lhe dá o direito de falar assim sobre si. A julgar pela qualidade do poema, ele é, sim, muito habilidoso e podemos esperar de sua pena o uso de todos os recursos da retórica a fim de alcançar seu objetivo que, nesse caso, é engrandecer o rei de Judá e a ocasião do seu casamento. Devido à sua grande capacidade – e da supervisão de Deus sobre o escrito em si –, temos nesse salmo um dos trechos mais bonitos da Bíblia e, também, mais difíceis de serem compreendidos devido à aplicação que o Novo Testamento faz do salmo à pessoa do Messias, o Senhor Jesus Cristo.

O rei em questão não é identificado, nem tampouco a rainha. Entretanto, o rei parece ser um homem tremendamente respeitado pelo seu procedimento (v.2) e um guerreiro com vitórias incontestáveis, dignas de um herói nacional (v.3) que mantém o domínio sobre seu povo e sobre nações conquistadas (vv.4,5). Ele parece exercer sobre o povo um boa influência por ser exemplo de justiça a ponto de, “figuradamente”, ser chamado de Deus pelo salmista (v.6) – nesse caso, o salmista não tem a intenção de compará-lo ao Deus eterno, mas lança mão de um recurso utilizado outras vezes nas Escrituras para exaltar uma qualidade ou uma função, nesse caso, a justiça; outros exemplos desse uso são a função de Moisés na sua relação com Arão e com o Faraó (Ex 4.16; 7.1) e o caso dito por Jesus em que homens foram chamados de deuses (Jo 10.34 cf. Sl 82.6). O rei que está para se casar é um homem de Deus, um homem reto, um bom governante, uma pessoa magnífica e honrada (vv.7-9).

A noiva, por sua vez, pertencia a outro povo, o qual deixava para trás (v.10), muito amada pelo seu noivo, a quem ela respeita (v.11). Ela era estrangeira e seria honrada por pessoas de outras nações (v.12). Na presença do seu rei, sua beleza é adornada e ela se torna ainda mais bela (vv.13-15). Para completar o quadro glorioso, sua descendência, em conjunto com o rei, seria distinta e numerosa, a qual traria grandes honras ao governante justo (vv.16,17). Que quadro lindo! Que romance belo! Quanta alegria! Quantas promessas! Toda essa alegria faz desse cântico um lindo salmo.

Entretanto, o Novo Testamento demonstra que Deus, movendo os escritores bíblicos (2Pe 1.21) a fim de registrarem sua palavra inspirada (2Tm 3.16), tinha aplicações ainda mais profundas e abrangentes para esse salmo, ainda que seu escritor não o soubesse ou que ignorasse certos detalhes das suas implicações futuras. O fato é que, quando Hebreus 1.8,9 aplica a Jesus o texto do Salmo 45.6,7, este assume um novo significado e cumprimento. Na verdade, o salmo parece se cumprir melhor no próprio Cristo que no rei que está prestes a se casar. Pensando assim, o salmo apresenta algumas características do reinado de Jesus, o Messias.

A primeira delas é a eternidade. O reinado de Jesus tem caráter permanente. Sua singularidade será perpetuada sem que haja fim. O v.2 diz: “Tu foste adornado mais que os filhos dos homens; a graça se derramou nos teus lábios; por isso, Deus te abençoou para sempre” (yofyafîta mibbenê ’adam hûtsaq hen besiftôteika ‘al-ken berakka ’elohîm le‘ôlam). O mais esplendoroso dos reis manterá seu caráter e seu trono perpetuamente porque Deus assim o quis e instituiu. Nada nem ninguém podem impedi-lo.

A segunda característica é a soberania. O rei messiânico não é alguém que pede favores, nem que torce para que seus planos se cumpram. Com poder (v.3), aquele que é chamado de “forte” ou “valente” (gibôr) subjuga os adversários e faz valer sua decisão. O resultado é um só e nem poderia ser outro (v.5): “Os povos caem sob ti” (‘ammîm tahteyka yifflô). Ninguém é mais poderoso que o rei eterno, de modo que os povos se lhe submetem ou caem por sua espada. O fato é que não se deve resistir ao rei divino nem contradizê-lo.

Apesar do receio que uma figura soberana possa causar, o rei Jesus não é um déspota, visto que reina com poder, mas também com retidão. Isso porque a terceira característica do Messias é a justiça. O v.6, citado em Hebreus 1, diz: “Ó Deus, o teu trono é eterno e perpétuo; cetro de retidão é o cetro do teu reino” (kis’aka ’elohîm ‘ôlam wa‘ed shevet mîshor shevet malkûteka). Esse rei não abusa do poder que tem, mas não deixa de usá-lo na promoção do bem, da justiça e da disciplina. São dirigidas a ele as palavras (v.7): “Tu amas a justiça e odeias a perversidade” (’ahavta tsedek wattisna’ resha‘).

Tais características de onipotência e glória são expostas diante da presença de uma pessoa que tanto é favorecida pelo rei, como lhe é motivo de alegria: uma noiva. Sobre ela fala o v.9: “Uma consorte real está junto à tua mão direita” (nitsvâ shegal lîmîneka). A rainha em questão é a esposa do rei de Judá que estava para se casar na ocasião da composição do salmo. Entretanto, a figura da igreja como “noiva de Cristo” (Ef 5.25) faz com que ela possa ser comparada à rainha do Salmo 45 – ainda que identificá-la como tal é fazer o texto dizer mais do que realmente pretende. Assim, como igreja de Cristo, podemos olhar para a rainha israelita e entender como devemos nos portar hoje a fim de honrar a pessoa e a posição do noivo, nosso rei Jesus Cristo.

A igreja, como noiva do rei salvador, deve deixar a velha vida para trás. À rainha israelita foi ordenado (v.10): “Esquece o teu povo e a casa do teu pai” (shikhî ‘ammeka ûbêt ’avîk). A igreja, resgatada do mundo perdido, deve também se esquecer dele e se afastar do seu modo de vida pervertido e egoísta, fugindo do pecado (Gl 1.4; Ef 4.22-24). Deve, também, ter uma postura reverente e submissa, apesar de amorosa, que honre seu salvador (v.11): “Ele é o teu Senhor; portanto, prosta-te diante dele” (hû’ ’adonayik wehishtahawî-lô). A obediência a Deus deve ser uma marca distinta da igreja que faz com que a luz de Cristo seja vista pelo mundo (Ef 5.8,9). Finalmente, deve manter um caráter glorioso, compatível com o do noivo, visto que a rainha é assim descrita no v.13: “A filha do rei é completamente bela” (kal-kevudâ bat-melek). Cristo deve ser visto através da igreja (2Co 3.18).

Às vezes, penso que a igreja deixa de viver como uma rainha porque se esqueceu que está casada com um rei. O que se espera de uma noiva tão gloriosa, não por seu próprio caráter, mas pela dignidade do noivo, é que ela seja um exemplo para os de fora; uma embaixatriz das qualidades do seu Senhor. No âmbito do relacionamento com seu redentor, ela deve amá-lo e cumprir sua vontade. Deve ser fonte de regozijo para aquele que governa soberanamente sobre tudo. As pessoas devem olhar para esse casamento e ver a alegria e o amor que transbordam dele. Por fim, o estilo de vida dos crentes e seu contato íntimo com o Senhor Jesus devem ser, a exemplo do salmo, uma viva “canção de amor”.

Pr. Thomas Tronco

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Conhecimento que Passa de Pai para Filho

Meu avô era um homem interessante. Seu mau humor nos últimos anos de vida, devido à sua debilitada condição de saúde, não conseguiu apagar as memórias que tenho de vê-lo trabalhando em hortas que sempre produziam uma quantidade impressionante de alimentos com qualidade tal que nunca vi em outro lugar. Contudo, algo de que recordo atônito, ainda hoje, é de ele me contar a história da Europa, do mundo antigo e das colonizações como se fosse um professor. As histórias não eram apenas interessantes, mas verdadeiras, visto que as confirmava nas minhas aulas de História. Meu pai, mais que meu avô, me ensinou muita coisa. Mas ele é um homem estudado, aprendeu na escola o que me ensinou. Já, meu avô, sabia apenas ler. Isso é o que me deixava atônito.

Diante de tal espanto, certa vez lhe perguntei como é que ele sabia todas aquelas coisas. Ele me contou que seu pai lhe havia ensinado tudo aquilo. Dizia que se sentava com ele e o ouvia falar por horas. Em parte, essa resposta me satisfez. Contudo, a dúvida que nunca tirei é: “E como meu bisavô sabia tudo aquilo?”. O fato é que o ensino de pai para filho e de uma pessoa experiente para alguém que está começando a vida é algo marcante e produtivo. Quem dera tivéssemos mais tempo, no meio da pressa dos nossos dias, para exercitarmos essas aulas informais ao redor da mesa da cozinha e da garrafa de café!

O Salmo 44 dá mostras da validade e da importância desse ensino de uma geração para a outra. O salmista, descendente de Corá e membro de uma família dedicada ao serviço do Senhor no Templo, se vê em uma situação complicada que parece envolver uma derrota militar (vv.9,10) e suas naturais consequências como exílio (vv.11,12) e desprezo das nações vizinhas (vv.13,14). O próprio salmista pode ser um dos que estão exilados, conforme demonstram os salmos 42 e 43. Nesse contexto de sofrimento e desânimo, percebe-se a importância do ensino passado pela geração anterior. O salmo começa com a seguinte declaração (v.1): “Ó Deus, com os nossos ouvidos ouvimos nossos pais nos relatarem o que tu fizeste nos dias deles, em dias remotos” (’elohîm be’oznênû shama‘nû ’avôtênû sifferû-lanû po‘al pa‘alta bîmêhem bîmê qedem). Com esse conhecimento em mãos, o salmista obtém quatro benefícios para sua vida.

O primeiro benefício é conhecer o caráter de Deus. As gerações passadas de israelitas se esmeraram em guardar e transmitir as memórias dos atos de Deus em seu benefício. Por isso, o salmista podia falar a Deus (v.2): “Por tuas mãos tu expulsaste as nações e os [pais] assentaste; trouxeste dano aos povos e os [pais] enviaste no lugar” (’attâ yadka gôyim horashta wattitta‘em tara‘ le’ummîm watteshalehem). Quando o salmista diz “os assentaste” e “os enviaste” está se referindo aos pais que lhe contaram a história (v.1), apesar de não aparecer a palavra “pais”, mas sim, um sufixo que aponta para eles. Em resumo, trata-se da conquista de Canaã promovida por Deus para dar a terra aos israelitas conforme a promessa feita a Abraão (Gn 13.14-17; 15.18-20). Com isso, o salmista aprendeu que Deus é poderoso e, acima de tudo, fiel para cumprir o prometido. Essa lição produziu no autor dois sentimentos: confiança e gratidão. A confiança é expressa no v.6: “Não confio no meu arco e não é minha espada quem me salva” (lo’ beqashtî ’evtah weharbî lo’ hôshî‘enî). A gratidão, no v.8: “Nós louvamos a Deus todos os dias e celebraremos o teu nome para sempre” (be’lohîm hillalnû kal-hayyôm weshimka le‘ôlam nôdeh). Que aprendizado melhor que esse para se obter por meio da história daquilo que Deus fez por meio do seu caráter santo?

O segundo benefício é reconhecer a provação divina. Acontecimentos ruins sobrevieram ao exército de Judá. Perderam batalhas e fugiram derrotados pelos inimigos. Alguém poderia dizer “que má sorte!” ou “a culpa é do general!”. Entretanto, o salmista parece conhecer o procedimento de Deus pelo que ouviu dos antepassados. Com base nisso, soube que se tratava de uma atuação deliberada de Deus (v.9): “Mas tu nos rejeitaste, nos humilhaste e não sais com nossos exércitos” (’af-zenahtanû wataklîmenû welo’a-tetse’ betsiv’ôteynû). Há nesse versículo uma mudança muito grande no tipo de atuação de Deus. Antes (vv.1-8) o Senhor se mostrou um Deus guerreiro ao lado de Israel e protetor do seu povo, enquanto, agora, deixa-o marchar sozinho e não lhe favorece com a vitória. Aliás, Deus foi o autor da desgraça militar de Judá nessa ocasião, já que o salmista diz, entre os vv.10-14, “tu nos fizeste voltar atrás fugindo do inimigo” (teshîvenû ’ahôd minnî-tsar), “tu nos entregaste como ovelhas de corte” (tittenenû ketso’n ma’akal), “tu vendeste o teu povo por preço barato” (timkor-‘ammeka belo’-hôn), “tu nos transformaste em objeto de escárnio para os nossos vizinhos” (tesîmenû herpâ lishkenênû) e “tu nos transformaste em um provérbio entre as nações” (tesîmenû mashal baggôyim). Para o salmista, é muita clara a participação de Deus nos eventos que os assolam. O que esse salmo tem de diferente dos vistos até aqui é que, diferente de Davi que via em tais situações uma disciplina de Deus, esse salmista vê a mão do Senhor trazendo-lhes uma provação apesar da fidelidade que ele e um remanescente fiel mantinham (vv.17-22), apesar de o restante do povo ser possivelmente merecedor da disciplina – e, talvez, para eles o fosse mesmo. Entretanto, o remanescente, mesmo diante da provação, não se rebela contra Deus, nem desiste de servi-lo.

O terceiro é manter-se fiel a Deus. Como dito acima, o escritor do salmo olha para sua vida e se vê fiel a Deus (v.17): “Tudo isso veio a nós, mas não nos esquecemos de ti, nem violamos a tua aliança” (kal-zo’t ba’atnû welo’ shekahanûka welo’-shiqqarnû bibrîteka). É uma frase realmente encorajadora quando olhamo-la diante da situação em que vive o salmista. O conhecimento que ele e seus pares receberam dos antepassados os ensinaram o suficiente sobre o modo de Deus agir com suas ordens e com as circunstâncias para que soubessem não se tratar de uma punição injusta (vv.18-21). Eles, certamente, não conheciam os detalhes dos propósitos de Deus, mas sabiam quem Deus era. Por isso, o escritor do salmo termina esse trecho afirmando sua desventura, mas não com amargura. Na verdade, o faz em um tom que glorifica a Deus e encoraja o leitor a ser fiel nos revezes e nas perseguições que sofre por amor e fidelidade a Deus (v.22): “Assim, por ti somos mortos todos os dias; somos tidos como ovelhas a serem executadas” (kî-‘aleyka horagnû kal-hayyôm nehshavnû ketso’n tivhâ). É claro que o salmista não fora morto até então, de modo que a figuração “ser morto todos os dias” expõe as condições deploráveis em que eles viviam sob reais ameaças de morte. E tudo isso eles passavam, segundo diz o texto, “por ti”, ou seja, por amor a Deus e por se manterem fiéis a ele.

O quarto benefício é manter a esperança na provação. Uma lição importantíssima que o conhecimento que veio das gerações anteriores certamente transmitiu foi o valor e a importância da oração. Por isso, esse salmo não poderia, depois de expor tanto sofrimento, terminar sem uma oração esperançosa por socorro (v.23): “Desperta! Por que estás dormindo, Senhor? Acorda! Não nos rejeite perpetuamente!” (‘ûrâ lammâ tîshan ’adonay haqîtsâ ’al-tiznah lanetsah). Dificilmente o salmista quer dizer, por meio da figura do “sono de Deus”, que o Senhor está alheio à situação, ou incapacitado, já que afirmou que ele é o responsável pela provação. Assim, o salmista, figuradamente, refere-se à espera de Deus até o momento de libertá-los. Apesar do silêncio divino em tal ação, o salmista aprendeu com os antepassados que Deus é misericordioso e tem prazer em restaurar os seus – vide o livro de Juízes, por exemplo. Portanto, é cheia de esperança a frase que encerra a oração e o salmo (v.26): “Faça surgir socorro para nós e resgata-nos por causa da tua fidelidade” (qûmâ ‘ezratâ lanû ûpedenû lema‘an hasdeka).

Depois disso tudo, quem, em sã consciência, ainda pode desprezar o estudo das Escrituras ou lhe criar nomes que transmitam sentidos pejorativos? Quem menosprezará a pregação bíblica nos cultos de adoração ao Deus que nos deu sua palavra de modo tão maravilhoso? Quem poderá, insensivelmente, desprezar as santas orientações para a vida cristã e para o serviço de Deus? “Pois tudo”, afirmou o apóstolo, “quanto, outrora, foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4).

E mais: quem se omitirá em transmitir à próxima geração a mensagem que temos agora aprendido? Afinal, chegará o dia em que será a vez de os nossos filhos dizerem: “Ó Deus, com os nossos ouvidos ouvimos nossos pais nos relatarem o que tu fizeste nos dias deles, em dias remotos”.

Pr. Thomas Tronco

Calvinistas Evangelizam? (Parte 2)

Se o argumento que diz que a doutrina da eleição desestimula a pregação do evangelho não se sustenta à luz da Bíblia, tampouco esse mito pode se manter de pé diante da análise histórica. Com efeito, se o ensino bíblico acerca da predestinação gerasse desmazelo no evangelismo, seus expoentes nada teriam feito em prol da expansão da fé e ficariam fechados dentro de suas igrejas, aguardando sua fatal extinção. No entanto, não é isso que se vê na história. Antes, um zelo ardente por missões moveu os expoentes da doutrina da eleição, conduzindo-os como pioneiros e mártires aos rincões mais distantes do mundo, sempre à procura das ovelhas dispersas que fatalmente ouviriam a voz do Pastor Divino.

O primeiro exemplo vem do próprio Calvino. Em suas Institutas da Religião Cristã, o grande reformador citou Agostinho de Hipona, dizendo:

“Porque não sabemos quem pertença ao número dos predestinados, ou não pertença, assim nos convém tratar que a todos queiramos venham a ser salvos. Assim acontecerá que, quem quer que seja que se nos haverá de deparar, esforcemo-nos por fazê-lo participante de nossa paz. Mas, nossa paz repousará somente sobre os filhos da paz (Mt 10.13; Lc 10.6). Portanto, quanto a nós concerne, deverá ser a todos aplicada, à semelhança de um remédio... A Deus, porém, pertencerá fazê-la eficaz a quem preconheceu e predestinou” (AGOSTINHO DE HIPONA. De correptione et gratia, XIV-XVI. In CALVINO João. As Institutas ou tratado da religião cristã, III:XXIII, 14. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. Volume III, p. 426).

Calvino, contudo, não somente ensinou essas coisas. Ele também as pôs em prática. Uma prova disso está no fato de que, em Genebra, cidade onde atuou como pastor e estadista, foi criado, após 1545, o Fundo Francês, uma instituição que tinha como propósito central dar apoio material aos franceses pobres ali refugiados por causa da perseguição em sua terra natal. Calvino contribuía prodigamente para esse fundo e é provável que tenha sido um dos seus criadores. Ainda que os objetivos principais da instituição fossem no campo humanitário, é sabido que o Fundo Francês era também usado para fins missionários, sustentando pastores em Genebra que deveriam ser enviados à França.

É também preciso destacar que, em meados do século 16, havia em Genebra 38 tipografias, com cerca de 2 mil empregados, cujo trabalho dominante era imprimir literatura evangélica destinada aos países vizinhos, especialmente a França. Por conta disso, na década de 1540, Paris foi inundada pela literatura produzida em Genebra e as conversões começaram a ocorrer. Isso despertou a atenção e o desagrado do parlamento parisiense, o qual emitiu sucessivas listas de livros proibidos, nas quais eram incluídas quaisquer obras que expusessem ideias calvinistas. As gráficas de Genebra, porém, não paravam de lançar novos títulos, numa velocidade que o parlamento não podia acompanhar. Assim, as listas de livros censurados estavam sempre desatualizadas e as obras de Calvino continuavam a ser vendidas e lidas pelo povo francês.

Além disso, sendo impossível um controle absoluto sobre o comércio de literatura por parte das autoridades de Paris, os livros proibidos procedentes de Genebra eram vendidos no mercado negro. O resultado era que as conversões à fé evangélica não paravam de ocorrer na França. Os registros históricos apontam que, em 1562, dois anos antes de Calvino morrer, existiam pelo menos 1.250 congregações calvinistas naquele país, abrangendo mais de 2 milhões de membros! Foi, certamente, por causa desses extraordinários avanços que a Venerável Companhia de Pastores, outra instituição da Genebra de Calvino, enviou 151 missionários à França só no ano de 1561! (para mais detalhes, veja-se McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 203-222).

A obra missionária de Calvino também abrangeu a fundação da Academia de Genebra (1559) criada para treinar pastores e suprir a demanda que o crescimento do número de igrejas impunha aos reformadores. Muitos alunos dessa academia eram estrangeiros refugiados (franceses, ingleses, holandeses, italianos e alemães) que, depois de formados, voltavam para seus países de origem ensinando o que ali haviam aprendido. Entre esses alunos esteve John Knox, o grande reformador escocês. Foi assim que a escola fundada por Calvino tornou-se um grande centro missionário, irradiando a fé evangélica para o mundo inteiro.

É preciso ainda lembrar que os primeiros missionários protestantes que chegaram ao Brasil foram enviados precisamente por João Calvino. Eles vieram, a pedido de Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), com o objetivo de ensinar a fé reformada aos colonizadores franceses do Rio de Janeiro e evangelizar os indígenas. O grupo chegou em março de 1557, mas, menos de um ano depois, foi expulso devido a conflitos doutrinários com Villegaignon. Esses conflitos resultaram na produção da Confissão de Fé da Guanabara (1558), um documento de orientação reformada escrito por cinco calvinistas leigos aprisionados por Villegaignon. Desses cinco, quatro foram estrangulados, pondo fim ao trabalho missionário de Calvino no Brasil (mais informações sobre os calvinistas enviados de Genebra ao Brasil, bem como acerca do conteúdo da Confissão de Fé da Guanabara, veja-se NASCIMENTO, Adão Carlos e MATOS, Alderi Souza de. O que todo presbiteriano inteligente deve saber. Santa Bárbara d’Oeste: SOCEP, 2007. p. 39-48).

(Continua)

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria