sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Batismo Infantil (Parte 2)

Os argumentos que defendem o batismo infantil, ainda que muito bem elaborados, estão sujeitos a sérios questionamentos. Primeiro: a noção de que a participação dos pais crentes no Novo Pacto autoriza o batismo de seus filhos, da mesma forma que a participação dos pais israelitas no Velho Pacto impunha-lhes o dever de circuncidar seus bebês merece grave objeção. Isso porque o bebê israelita não era circuncidado porque seus pais eram israelitas. Ele era circuncidado porque, sendo filho de judeus, ele próprio era israelita. A causa direta da circuncisão do bebê judeu não estava nos pais, mas no próprio bebê, no fato de ele mesmo ser um judeu. Ora, não é esse o caso dos filhos dos crentes. Estes não nascem crentes, inexistindo neles próprios qualquer razão para que recebam o batismo. De fato, se o filho do israelita nascia israelita e, por isso, era circuncidado, o filho do cristão, por sua vez, não nasce cristão, não havendo razão nenhuma para ser batizado.

Há também grave deficiência no ensino, exposto na primeira parte deste artigo, de que o batismo é um substituto da circuncisão. Na verdade, absolutamente nada na Bíblia corrobora essa concepção. Mesmo o texto de Colossenses 2.11,12 está mui longe de confirmá-la. Aliás, uma simples leitura dessa passagem deixará o leitor surpreso, questionando onde é possível encontrar ali qualquer base para o ensino de que o batismo ocupa hoje o lugar do rito judaico.

A eventual surpresa do leitor será fácil de ser compreendida. Isso porque Colossenses 2.11,12 fala claramente da circuncisão do coração e do batismo do crente na morte de Cristo, ou seja, trata de realidades espirituais e não de ritos externos. Ademais, a passagem aponta essas realidades espirituais como fenômenos distintos e não como se o segundo fosse substituto do primeiro.

Com efeito, em Colossenses 2.11,12, Paulo explica que o crente foi circuncidado por Cristo (Rm 2.28,29). Isso significa, conforme o próprio v.11 esclarece, que sua natureza pecaminosa foi despojada e enfraquecida (Rm 6.6). Em seguida, o apóstolo afirma que esse milagre aconteceu quando o crente foi batizado na morte do Senhor (v.12), isto é, quando, pela fé, ele se uniu ao Salvador, morrendo para o pecado e ressuscitando para uma vida nova (Rm 6.3,4). Assim, Paulo trata nessa passagem de duas realidades ligadas, porém ligeiramente distintas: a participação do crente na morte de Cristo (o que é chamado de batismo) e o amortecimento de sua natureza pecaminosa (a circuncisão do coração) decorrente da participação na morte do Senhor. Esse e somente esse é o ensino claro da passagem, estando mui longe de servir de base para a noção de que o batismo é a versão cristã da circuncisão judaica. Consequentemente, batizar bebês sob tal pretexto é prática carente de fundamento sólido.

Quanto ao argumento construído sobre Romanos 4.11, onde a circuncisão é chamada de “selo da justiça da fé”, este também é facilmente desfeito. Conforme visto, seus proponentes afirmam que a circuncisão, um selo da justiça da fé, devia ser aplicado a bebês sem fé, de modo que, segundo eles, nada pode haver de errado em fazer o mesmo com o batismo, outro selo da justiça da fé. Essa linha de raciocínio, contudo, está equivocada, pois, ao chamar a circuncisão de selo da justiça da fé, Paulo se refere à circuncisão específica de Abraão. Tanto isso é verdade que, se o texto em análise for lido com atenção, fatalmente saltará aos olhos que a circuncisão ali mencionada é vista como um selo da justiça procedente da fé que Abraão teve quando ainda incircunciso.

A circuncisão isoladamente considerada, portanto, não era um selo de fé, mas apenas uma marca distintiva no corpo dos que participavam da Antiga Aliança. Para receber um selo de fé, é preciso ter fé. Foi por isso que quando o eunuco etíope perguntou a Filipe se podia ser batizado, o evangelista respondeu: “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.37).

Desse modo, batizar bebês permanece uma prática sem qualquer base nas Escrituras.  Na verdade, apenas crianças que já compreenderam o evangelho e aceitaram sua mensagem podem ser batizadas. Com efeito, a Bíblia diz que antes de ser batizada a pessoa deve arrepender-se e crer em Cristo (At 2.38,41,42; 8.37). E mais: as Escrituras mostram que o batismo é um símbolo de nossa morte para o pecado e ressurreição para uma nova vida (Rm 6.4,11). Por isso, somente podem participar do símbolo os que já participaram da realidade que ele representa.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Felicidade e o Fracasso

Quando ainda adolescente, tive uma colega que era uma grande fã do ator James Dean (1931-1955), apesar de, como eu, ter nascido muito tempo depois da morte do famoso astro “rebelde”. Por causa dela, passei a conhecer um pouco da história do ator que, ainda hoje, dá nome e tom a estilos de roupas e de penteados. James Dean, dentre os filmes que estrelou, foi o ator principal do filme Juventude transviada (Rebel whitout a cause, 1955), tornando-se modelo de uma geração de jovens que almejavam a mesma “liberdade” que ele encenava.

Apesar do estilo marcante imitado por um sem-número de jovens, o que mais me impressiona a respeito dele é algo que ele dizia fora das telas. Em sua rebeldia, que extrapolava os filmes, ele disse: “Morra jovem e tenha um cadáver bonito”. Esse pensamento justificava seu modo irresponsável de vida. Infelizmente, o fim da sua vida fez jus à sua filosofia: James Dean morreu com 24 anos em um acidente de carro. Na necrópsia, além da coluna vertebral partida e da hemorragia interna que lhe levou a vida, o médico constatou inúmeras cicatrizes no peito feitas ao apagarem nele cigarros a seu pedido em um bar de Hollywood que costumava frequentar.

Apesar de parecer a muitos que essa foi uma morte “poética” que coroou a carreira e a fama do ator, acredito que, dificilmente, James Dean pensaria o mesmo agora. Tenho por certo que seus pensamentos seriam sobre o quanto ele perdeu da vida ao morrer jovem, sobre a família que teria se estivesse vivo, sobre outros filmes que viria a tomar parte e coisas desse tipo. Mas, principalmente, o quanto era tola a “sabedoria” que ele julgava ter e que transmitiu com orgulho para outros.

O Salmo 1 demonstra que a felicidade perene tem uma fonte certa e que, fora dela, ainda que haja sucesso momentâneo, o resultado final é tristeza e dor. Na verdade, o autor do salmo traça uma nítida distinção entre o homem feliz, ou “bem-aventurado”, e o homem ímpio que vive distante de Deus.

O v.1 estipula três requisitos, na forma negativa, para a felicidade de uma pessoa. Trata-se de três “nãos”. Tal homem “não segue a proposta dos injustos” (lo’ halak ba‘atsat resha‘îm). Os ímpios aconselham-no a agir de certo modo, provavelmente igual a eles, com injustiça e engano, mas tal homem não atende seus clamores nem acolhe suas falsas sabedorias. Ele também “não permanece no caminho dos pecadores” (bederek hatta’îm lo’ ‘amad). A companhia de homens que desprezam o Senhor com seus atos não agrada o homem “bem-aventurado” de modo que não há comunhão entre eles. Seu contato com pessoas que vivem em pecado é cuidadoso e limitado. E, finalmente, ele também “não toma lugar na reunião dos cínicos” (bemoshav letsîm lo’ yashav). A falsidade e a zombaria da verdade e da justiça não são o ambiente visitado pelo homem que é bem-aventurado. Ele, cautelosamente, se mantém longe de tais ajuntamentos.

Esses três cuidados garantem uma parte da felicidade aos homens que fogem do estilo de vida mundano. A outra parte da felicidade é alcançada quando tal homem busca conhecer a vontade de Deus para cumpri-la. O v.2 diz que, além do afastamento dos caminhos que levam a uma alegria fácil e rápida, o homem que se torna feliz de verdade também se aproxima da “lei do Senhor”. Essa expressão é uma referência ao ensino das Escrituras. Tal pessoa busca conhecer a vontade de Deus de modo tão sério que “medita durante o dia e a noite” (yehgeh yômam walaylâ) sobre aquilo que lê na Bíblia. A ideia expressa pelo salmista é a de alguém que fica recitando para si, sem se cansar, as verdades que aprendeu a fim de memorizá-las e compreendê-las. Isso e a consequente obediência às orientações do Senhor completam a felicidade que o mundo não pode conhecer por seus próprios meios nem oferecer a qualquer um que seja.

O resultado de se afastar do mal, e de se aproximar das orientações de Deus para atendê-las, produz no que assim age algo que pode ser expresso por meio de um símile, uma comparação entre essa pessoa sábia e uma árvore. Mas não é uma árvore qualquer. Trata-se de uma árvore em condições privilegiadas. A árvore que serve de comparação com o homem que é feliz por seguir a Deus (v.3) é plantada “perto de um ribeiro de águas”, recebendo, em termos de alimento, todos os nutrientes e toda a água de que precisa para se desenvolver. Assim como o homem cuja fonte de sabedoria é a Palavra de Deus, tal árvore produz frutos e não é vítima da seca. Essa é uma descrição figurada, mas muito clara, da segurança e da produtividade da vida daquele que ama o Senhor e segue seu ensino.

Por sua vez, os ímpios não são assim (v.4). Usando ainda uma linguagem figurada de natureza agrária, o salmista compara os injustos a “palha que o vento leva”, conferindo uma dupla ideia de transitoriedade, a saber, de ser seco e improdutivo como a palha e inaproveitável por ser levado para longe pelo vento. Não é uma comparação que transmite uma ideia de segurança e de um futuro feliz. Para que fique bem claro, o salmista abandona a linguagem figurada e é claro no ponto que defende (v.5). Diz que “os ímpios não ficarão em pé no juízo” (lô’-yaqumû resha‘îm bammishpat) porque não têm nada que lhes abone as faltas diante de Deus e que os impeça de serem condenados. O mesmo se dará com “os pecadores na reunião dos justos” (wehatta’îm ba‘adat tsadîqîm). Eles não podem permanecer ali, pois não é seu lugar. Durante toda a sua vida suas reuniões foram outras.

O salmo termina explicando, no v.6, que a razão da felicidade perene dos que o temem e da desventura dos que agora se alegram na impiedade é que “o Senhor é quem reconhece o caminho dos justos” (iôdea‘ yehwâ derek tsadîqîm). Como a segunda cláusula, que diz que o “caminho dos ímpios fracassará” (we derek resha‘îm to’ved), é contraposta por meio da partícula “mas” (we), a primeira cláusula deve ter uma ideia mais ampla que um simples conhecimento de Deus a respeito daqueles que o temem. A interpretação mais apropriada é a de que Deus age bem para com os seus, dando-lhes uma felicidade eterna, destino este bem diferente do futuro dos pecadores.

Os dois únicos futuros possíveis são “felicidade” para os que buscam a Deus, por meio da fé no Senhor Jesus Cristo, o Salvador, e “fracasso” para os que buscam alegria momentânea e a satisfação de todos os seus desejos.

Por tanto, fique alerta! Se você agora defender e seguir um estilo de vida mundano e longe de Jesus, no qual a falsa felicidade é buscada desenfreadamente a qualquer custo, seu futuro pode ser bem tenebroso. Talvez, o melhor que você possa esperar seja um “cadáver bonito”. Fuja disso crendo e entregando sua vida a Jesus!

Pr. Thomas Tronco

A Caligrafia de Deus

“A Bíblia foi escrita por homens!” Essa é uma das frases que os crentes mais escutam quando testemunham do amor de Deus e o suplício de Jesus Cristo no Calvário. O ceticismo e a rebeldia contra Deus motivam ardentemente os ataques àqueles que vivem segundo às Escrituras.

Felizmente, o crente que vive segundo as Escrituras também as conhece.  Ele não se abala, pois se fortalece na própria Palavra de Deus que o conforta dizendo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17).

O constrangimento dessa acusação também é dissipado como a neblina diante do Sol quente da manhã, pois o Espírito Santo também o auxilia a recordar a defesa do apóstolo Pedro sobre a revelação bíblica: “Antes de mais nada, saibam que nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação pessoal, pois jamais a profecia teve origem na vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.20,21).

Entretanto, é importante lembrar que a Palavra de Deus não é apenas um texto inspirado por Deus, mas que também contém textos “escritos” pelo próprio Deus. Esses episódios são tão escassos em meio à imensidão da inspiração que nos esquecemos de agregá-los aos versículos supracitados na defesa da fé cristã.

Ademais, antes de os conhecermos, não podemos nos esquecer que a inerrância das Escrituras não se altera quando lemos os escritos de homens movidos por Deus ou pelos próprios escritos do próprio Deus. Quando Deus escreve ou move um homem a escrever sua Palavra inspirada, o resultado é o mesmo: tão somente a Palavra de Deus.

Reflitamos sobre quatro lugares que contém a escrita divina, posteriormente registrada por escritores humanos.

1. As Tábuas do Monte Sinai
“Quando o Senhor terminou de falar com Moisés no monte Sinai, deu-lhes as duas tábuas da aliança, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus” (Ex 31.18).

“Disse o Senhor a Moisés: ‘Talhe duas tábuas de pedra semelhantes às primeiras e nelas escreverei as palavras que estavam nas primeiras tábuas que você quebrou” (Ex 34.1).

Nesse primeiro exemplo, Deus, dando início à aliança mosaica (ou sinaítica), escreve a Lei que os judeus deveriam obedecer. A ênfase na decisão do próprio Deus escrever esse conjunto de leis pode ser notada no segundo versículo: Deus ordena a Moisés a talhar pedras para que Ele refizesse sua escrita. Visto que Moisés havia quebrado as primeiras tábuas, Deus reescreve seus preceitos a fim de que os hebreus pudessem honrar ao seu libertador de maneira digna.

Como está escrito, nenhum homem, com exceção de Cristo, cumpriu ou cumprirá a Lei. E, tropeçando em um único preceito, quebram-se todas as outras ordenanças. Essa Lei escrita em pedra, assim como um espelho, é útil para mostrar quão maculado é o coração do homem.

2. Os Corações dos Incrédulos
“Todo aquele que pecar sem a lei, sem a lei também perecerá, e todo aquele que pecar sob a lei, pela lei será julgado. Porque não são os que ouvem a lei que são justos aos olhos de Deus; mas os que obedecem à lei, estes serão declarados justos. De fato, quando os gentios, que não têm a lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmo, embora não possuam a lei; pois mostram que as exigências da lei estão gravadas em seus corações. Disso dão testemunho também a consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os. Isso acontecerá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho” (Rm 2.12-16).

Nesse segundo exemplo, Deus enfatiza que a ignorância a respeito dos seus preceitos não pode ser alegada como defesa, pois os corações humanos têm as leis de Deus escritas por ele mesmo. Mais importante ainda é o sentido escatológico que se tem desses escritos de Deus: “O dia em que Deus julgar os segredos dos homens”.

Assim como um arquivista resgata documentos de um “arquivo morto”, Deus resgatará seus próprios escritos negligenciados pelos seres humanos. A “cauterização da consciência” dos incrédulos apenas empoeira os escritos de Deus, mas não os apaga. No julgamento final, Deus soprará essa poeira, não para dar vida, como ocorreu na criação, mas para dar a morte eterna.

3. Os Corações e Mentes dos Crentes
“Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos” (2Co 3.3).

“O Espírito Santo também nos testifica a este respeito. Primeiro ele diz: ‘Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor. Porei as minhas leis em seus corações e as escreverei em suas mentes’; e acrescenta: ‘Dos seus pecados e iniquidades não me lembrarei mais’” (Hb 10.15-17).

No terceiro escrito, Deus enfatiza a importância da obediência aos seus preceitos, assim como fez ao refazer os escritos nas pedras que antes foram quebradas por Moisés. Todavia, a caligrafia divina se perfaz não em pedras, mas na mente e coração humanos. Essa caligrafia impele o crente a obedecer alegremente a Deus, pois o Espírito Santo selou tais vidas para a glória eterna quando creram no Senhor Jesus Cristo, o Salvador.

Quando a lei permanece somente escrita em pedras, dos corações humanos transbordam o desprezo e a blasfêmia, assim como fizemos no passado. Entretanto, robustecendo a graça em interessante arranjo dos versículos pelo autor de Hebreus, o mesmo Deus que escreve nos corações dos crentes apaga os pecados e iniquidades cometidos pelos seus filhos.

4. O Livro da Vida
“Sim, e peço a você, leal companheiro de jugo, que as ajude; pois lutaram ao meu lado na causa do evangelho, com Clemente e meus demais cooperadores. Os seus nomes estão no livro da vida” (Fp 4.3).

“A besta que você viu era e já não é. Ela está para subir do abismo e caminha para a perdição. Os habitantes da terra, cujos nomes não foram escritos no livro da vida desde a criação do mundo, ficarão admirados quando virem a besta, porque ela era, agora” (Ap 17.8).

“Nela jamais entrará algo impuro, nem ninguém que pratique o que é vergonhoso ou enganoso, mas unicamente aqueles cujos nomes estão escritos no livro da vida do Cordeiro” (Ap 21.27).

No último exemplo dos escritos de Deus, temos, basicamente, um epílogo de todos os escritos divinos: o Livro da Vida. Nesse livro estão os nomes daqueles que sabem que são incapazes de cumprir a lei de Deus grafada na pedra (seja na “tábua de pedra” ou no “coração de pedra”) e creram no Senhor Jesus Cristo, sendo presenteados com a substituição do velho coração pétreo por um coração de carne grafado pelo próprio Deus.

Nenhum dos escritos de Deus se perderá. Todos os seus escritos vêm sendo armazenados em sua biblioteca particular. Todavia, essa biblioteca divina está dividida em duas partes: o céu – onde o dono da biblioteca habita – e o inferno – o suplício eterno onde a esperança morreu. Todo ser humano contém pelo menos um escrito de Deus, a saber, aquele escrito no coração de pedra. Os que creem, como vimos acima, tiveram seus corações de pedra transformados e reescritos pelo Deus-trino. Dessa forma, têm seus nomes escritos pelo mesmo autor (Deus) no Livro da Vida.

A cada dia, “livros” e mais “livros” têm sido “guardados”. Segundo as estatísticas mundiais do The World Factbook (CIA), mais de 146 mil pessoas morrem por dia em todo o mundo (duas pessoas por segundo). Sim, é uma vastíssima biblioteca!

Em qual parte da biblioteca o livro que leva o seu nome será guardado?

Leandro Boer

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Batismo Infantil (Parte 1)

A prática do batismo infantil foi adotada muito cedo pela igreja cristã. De fato, já no século 2 há evidências de que os cristãos batizavam seus bebês, uma vez que criam no batismo como uma forma de remissão de pecados e capaz de garantir a salvação das vítimas de morte prematura.

É verdade que Tertuliano de Cartago († c. 220) se insurgiu contra essa prática. Porém, ele o fez porque entendia que o arrependimento para perdão de pecados mortais só poderia ocorrer uma vez depois do batismo. Segundo Tertuliano, esse fato deixava os que eram batizados muito cedo em situação perigosa, sujeitos a perder, irremediavelmente e para sempre, o favor de Deus na fase adulta. Para ele, esse era o motivo pelo qual o batismo devia ser protelado até que a pessoa se sentisse mais distante do perigo de cometer pecados mortais como o adultério, o assassinato ou a apostasia.

Se, por um lado, há ampla evidência histórica para o pedobatismo, de outro, não há nenhum fundamento bíblico para essa prática. A despeito disso, os defensores do batismo infantil apresentam alguns argumentos em sua defesa.

O primeiro desses argumentos (e talvez o mais popular) é construído a partir da história narrada em Atos 16.27-34, referente à conversão do carcereiro de Filipos e seus familiares. Segundo o texto, depois que ouviram a Palavra do Senhor, o carcereiro foi batizado, ele e todos os da sua casa (At 16.33). No entender dos pedobatistas, certamente havia crianças bem pequenas naquela família, sendo todas incluídas no batismo realizado naquela ocasião. É difícil, porém, levar esse argumento a sério, posto que se sustenta unicamente sobre o frágil alicerce da  imaginação e da criatividade dos seus proponentes. Para desmantelá-lo, basta lembrar o fato óbvio de que nem todas as famílias têm bebês em casa.

A defesa do batismo infantil tem, na verdade, colunas de apoio muito mais sólidas do que o argumento exposto acima. Seus proponentes mais capazes expõem razões que merecem consideração séria e análise mais bem elaborada.

É o caso do argumento relativo ao Pacto. Os pedobatistas entendem que, assim como os bebês dos israelitas eram circuncidados pelo fato de seus pais pertencerem ao Pacto entre Deus e a nação judaica (Gn 17.10-14), da mesma forma os bebês dos crentes devem ser batizados, uma vez que seus pais, desde o dia em que se converteram, tornaram-se participantes do mesmo Pacto por meio da fé em Cristo (Gl 3.7,29). Essa concepção ainda admite expressamente que os filhos de quem participa do Pacto também pertencem ao Pacto, estando aí a razão principal para que se sujeitem ao símbolo do Pacto. Ora, no passado, o símbolo do Pacto foi a circuncisão, mas, como ela foi anulada (Gl 5.2,6; 6.15), o batismo a substituiu. Assim, de acordo com essa visão, o batismo infantil é o correspondente cristão da circuncisão judaica.

Essa conexão entre circuncisão e batismo é defendida especialmente com base em Colossenses 2.11-12. Nesse texto, dizem, circuncisão e batismo estão ligados, ambos representando o fim da velha vida de pecado, havendo, assim, forte associação entre os dois ritos. Em seu desdobramento final, toda essa argumentação afirma o seguinte: se Paulo iguala a circuncisão e ao batismo e se o primeiro era aplicado aos bebês, nenhum absurdo há em aplicar também o batismo aos recém-nascidos.

Outro intrigante argumento em prol do batismo infantil é baseado em Romanos 4.11. Esse argumento é construído assim: Em Romanos 4.11, Paulo define a circuncisão como “selo da justiça da fé”. Ora, no Velho Testamento, Deus ordenou que esse “selo da justiça da fé” fosse aplicado a bebês que não tinham fé (Lv 12.3). Logo, não é errado gravar com um selo de fé as crianças que ainda não creem. Condenar essa prática seria reprovar o que o próprio Deus ordenou! Assim, considerando que o batismo também é um selo de fé, nada há de errado em aplicá-lo ao bebê que ainda não crê. Se o próprio Deus mandou que isso fosse feito, quem somos nós para dizer que é preciso crer antes de receber o selo da fé?

Se tudo isso é correto, por que os batistas e outros evangélicos não batizam bebês? As razões disso serão expostas na próxima parte deste artigo.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os Malfeitores e o Verdadeiro Órgão de Defesa do Consumidor

Ultimamente, ando decepcionado com as lojas e com as prestadoras de serviço. Tive péssimas experiências de ser bem atendido na hora de adquirir algo e, depois, na hora de receber o produto ou de ter suporte técnico e manutenção, ser extremamente negligenciado.

Dentre todas essas más experiências que acumulei, as piores foram aquelas cujo contato se dá por telefone. O motivo disso é que as empresas, ao que me parece, deliberadamente criam um sistema em que a burocracia vence os esforços dos clientes e burla o senso de justiça. Resumindo, elas fazem o que querem e você nunca tem com quem reclamar, já que os atendentes não passam de funcionários cuja função é apenas falar com as pessoas, registrar seus pedidos e – coitados deles – testemunhar a fúria de clientes explorados e enganados pelas empresas.

Desse modo, as ricas corporações ficam cada vez mais ricas, enquanto os pobres, principalmente os que têm menos recursos a que possam recorrer, ficam cada vez mais pobres. O desgosto do consumidor é tão grande que é comum ouvir: “Todos esses homens são desonestos e não há um deles que não seja ladrão”. É muito provável que a realidade não seja exatamente essa e que haja corporações que respeitem os direitos das pessoas, mas, ainda assim, concordamos, muitas vezes, com frases desse tipo.

Davi viveu uma situação parecida com a nossa. Mas o objeto do seu protesto não foram empresas de telefonia ou de cartões de crédito. O Salmo 14 é um protesto contra os “malfeitores” (v.4), os quais ele chama literalmente de “causadores de lamentos” (po‘alê ’awen). Trata-se de pessoas cujas ações trazem sofrimento àqueles que, por vezes, não têm como se defender: os “justos” (v.5) e os “pobres” (v.6). Os pobres vivem, quase sempre, à margem dos meios de justiça sem ter acesso a ele ou sem alcançar a empatia dos agentes da promoção da lei e da ordem. Os justos, por sua vez, são privados, por sua própria justiça, de terem reações vingativas ou condignas do desrespeito com que foram tratados. Sabendo disso, os malfeitores abusam deles ainda mais.

Davi diz, no v.1, que esses homens insensatos falam para si mesmos: “Não há Deus” (’ên ’elohîm). Apesar de a afirmação se parecer com a proposta dos ateus, não é provável que no mundo politeísta do passado houvesse muitos que acreditassem em um vácuo divino. Na verdade, o que passava no coração daqueles homens maus e injustos é que não havia um vingador das injustiças que eles cometiam. Para eles, não havia um juiz maior que todos que os pudesse deter ou punir. Por isso, diz o texto, eles “se perverteram” (hishhîtû) e “procederam de modo abominavelmente cruel” (hit‘îvû ‘alîlâ).

O v.2 contempla o Senhor fazendo uma sondagem nesses homens para ver se há, dentre tais homens, “aquele que busca a Deus” (doresh ’et-’elohîm). A resposta, duas vezes pronunciada (vv.1,3), é “não há quem faça o bem” (’ên ‘oseh-tôv). O v.3 reforça o quadro ruim demonstrando que, apesar da busca apurada, o resultado dela é que “não há nem sequer um” (’ên gam-’ehad) que aja bem ou busque a Deus. Apesar de Paulo aplicar esse texto à realidade de “toda” a raça humana em relação ao pecado (Rm 3.10-12), parece que o universo de “todos” aqueles que não fazem o bem compreende, no Salmo 14, apenas os “malfeitores”, que são contrastados, nesse salmo, com os “justos” e com os “pobres”. Trata-se de “todos” os que, conforme o v.3, “juntos se desviaram e se corromperam” (sar yahdan ne’elahû).

Por fim, a maldade e a falta de temor de tais homens são tão grandes que, além de não buscarem a Deus (v.2), também “não clamam a Deus” (yehwâ lo’ qara’û) por nada. São homens completamente desligados de Deus, confiantes em seus próprios recursos e confiantes de que não há quem os possa deter ou repreender. Por essa causa, eles se aproveitam dos indefesos de modo que Deus se refere a eles como “aqueles que devoram o meu povo como quem devora pão” (’okelê ‘ammî ’okelê lehem). Não há limites para os anseios desses malfeitores. Nenhum obstáculo os faz parar nem sua consciência os acusa de nada. Prejudicam as pessoas e conseguem, mesmo assim, dormir tranquilos.

Entretanto, esse abuso não é bem visto por Deus. Nem o Senhor se omite diante de tantas perversidades. Davi diz que, apesar de os malfeitores “ridicularizarem os alertas dos pobres” (‘atsat-‘anî tavîshû) sobre as consequências de agirem daquele modo, o Senhor atua em dois sentidos. O primeiro é agir como “refúgio” dos seus (v.6). Em segundo, agir como vingador no mal, causando “grande pavor” nos malfeitores (v.5). Por fim, Davi, que no momento vê os injustos prevalecerem, olha com esperanças para as promessas de Deus desejando que elas se cumpram logo e que o Senhor, em breve, venha a “restaurar o seu povo” (v.7), trazendo-lhe exultação e alegria.

Não sei mais quantas vezes serei tratado injustamente pelas empresas que são mais ricas e mais fortes do que eu. Mas sei que elas não podem conter a atuação de Deus, nem impedir que ele faça justiça aos seus, seja confortando-os no sofrimento, seja livrando-os das suas armadilhas. Por isso, olho para o futuro cheio de esperanças e fazendo coro com o rei Davi: “Tomara de Sião viesse já a salvação”.

Pr. Thomas Tronco

A ‘Teoria da Relatividade’ de Davi

“Deste aos meus dias o comprimento de um palmo; a duração da minha vida é nada diante de ti. De fato, o homem não passa de um sopro” (Sl 39.5).

Não há nada em nossa vida que não esteja intimamente relacionado com o tempo. Se somos ágeis ou lerdos, se estamos adiantados ou atrasados, se nos locomovemos ou se simplesmente pensamos, o tempo ainda é o “pano de fundo” de tudo que nos cerca. Mas, afinal, o que é o tempo?

Vejamos dois pensamentos a respeito do conceito de tempo:

“Se não me perguntarem, eu sei o que é. Se tiver de explicar para alguém, não sei. O problema é que o passado não está mais aqui, o futuro ainda não chegou e o presente voa tão rápido que parece não ter extensão alguma. Aliás, se o presente só surge para virar passado, não daria para dizer que o tempo é uma caminhada rumo à não-existência?” (Agostinho de Hipona – 354-430).

“Uma ilusão. A distinção entre passado, presente e futuro não passa de uma firme e persistente ilusão” (Albert Einstein – 1879-1955).

A primeira explicação pertence a Agostinho de Hipona, um filósofo cristão. A segunda é do primeiro físico teórico pop do mundo, Albert Einstein. Apesar de Agostinho ter abraçado a fé cristã, contrariamente ao que optou Albert Einstein, ambos expressam perplexidade sobre o conceito de tempo por ângulos diferentes.

Nota-se, por exemplo, que o atributo “absoluto” não pode ser concedido ao tempo e que essa privação confere relatividade a tudo que nos cerca.

Davi, rei de Israel “segundo o coração de Deus”, inspirado pelo Espírito Santo, descreveu a perplexidade do tempo sob a óptica de sua própria longevidade. Aproximadamente. 1.400 anos antes de Agostinho de Hipona e 2.900 anos antes de Albert Einstein, o rei Davi escreveu o Salmo 39 do qual foi retirada a epígrafe deste artigo. Nesse versículo, vemos porque o pretenso atributo “absoluto” do tempo se esmigalha. “Absoluto” é um atributo inerente a Deus, o autor do tempo e da vida. Logo, todos os conceitos expressos por Davi se relativizam sob o Deus absoluto e infinito, pois a criação (tempo) não pode conter o Criador (Deus).

Davi teve vida longa segundo os padrões pós-diluvianos de sua época: setenta anos. A título de comparação, a expectativa média de vida no Brasil, 3 mil anos depois, é de 72,8 anos. Logo, considerando os parâmetros atuais da expectativa de vida, Davi alcançou boa longevidade. Entretanto, “curiosamente”, Davi diz que seus “dias” de vida são como um “palmo” e um “sopro” diante de Deus.

Ele realça, de forma poética, a pequenez do período de setenta anos diante de Deus. Para entendermos porque um palmo é uma ilustração de pequenez, imagine-se medindo um pequeno terreno com suas mãos. Você perceberá que sua paciência é menor do que imaginava. Ademais, o que é um sopro? Por meio de um aparelho chamado espirômetro, nota-se que o ser humano normal, quando é solicitado a soprar forçosamente, é capaz de expirar 97% da “capacidade vital” (quantidade de ar que há nos pulmões que se pode expirar) em aproximadamente três segundos. Enfim, três segundos parecem ser muito pouco tempo para se correlacionar com setenta anos!

Estaria Davi sendo ingrato por seus setenta anos? Com certeza, não! Ao iniciar o seu texto, ele assegura a santidade das palavras que se seguem: “Vigiarei a minha conduta e não pecarei em palavras” (Sl 39.1a). E, corroborando a defesa de que Davi não é ingrato, “setenta anos se transformaram em três segundos” porque Davi se comparou ao Deus eterno. Em verdade, é até impróprio dizer que a vida de Davi é de “três segundos”, pois ele mesmo diz que sua vida é “nada” diante de Deus. Ou seja, infinitamente menos em relação aos três segundos.

Para darmos mais corpo à “relatividade” de Davi, que transformou setenta anos em três segundos, qual a duração mínima do tempo para que percebamos setenta anos como três segundos? Com o auxílio da proporção matemática, chega-se ao valor de, aproximadamente, 54 bilhões de anos. Ou seja, setenta anos em 54 bilhões de anos têm a mesma proporção que três segundos em setenta anos.

Logo, mesmo que um cristão vivesse setenta anos de ininterrupta agonia e sofrimento, isso equivaleria, no mínimo, a 54 bilhões de anos de perfeito, infinito e inefável regozijo com Deus! Todavia, sabemos que àqueles que receberam o Filho de Deus, Jesus Cristo, foi-lhes dada a honra de viverem eternamente com Deus. Logo, se utilizarmos o limite ao infinito em nossos cálculos, nossa vida terrena é igual a zero diante de Deus! Daí vem o “nada” dito por Davi. 

Mas há ainda um aspecto interessante em relação ao “palmo” e ao “sopro”. Quando o mesmo “palmo” e o “sopro” provêm do “absoluto” (Deus) os resultados não denotam pequenez, mas infinita glória! Em humilhação santa que a Palavra de Deus pode nos proporcionar, a “palma” da mão Deus é usada para medir um universo estimado em mais de 150 bilhões de anos-luz de diâmetro: “Quem mediu as águas na concha da mão, ou com o palmo definiu os limites dos céus?” (Is 40.12a). E, em relação ao “sopro”, temos a magnífica criação da humanidade: “Então, o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2.7).

Talvez você quebre um dos recordes de longevidade pós-diluviana de que se têm notícia: 175 anos (Abraão). Mas, serão anos difíceis, cheios de sofrimento e rápidos: “Os anos de nossa vida chegam a setenta, ou a oitenta para os que têm mais vigor; entretanto, são anos difíceis e cheios de sofrimento, pois a vida passa depressa, e nós voamos!” (Sl 90.10).

É imprescindível, para termos uma vida serena, a constante consciência daquilo que nos espera: a vida eterna com Deus! Uma vida em que o tempo não se aplica, pois os ponteiros do relógio do paraíso não existem! Uma vida em que nos está reservada a função de reinar com Cristo, servir e louvar a Deus com constante alegria. Quando você olhar para esse imaginário relógio celestial, você constatará: “Essa minha alegria não tem hora para acabar!”

Diz o Salmo: “Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria” (Sl 90.12). Esse versículo fala sobre a importância de contarmos os dias em que nos encontramos em comunhão e obediência a Deus. Todavia, é necessário expandir e enfatizar a sua aplicação para os dias difíceis e de sofrimento que estão no mesmo salmo. Crente, “faça as contas” dos dias difíceis e de sofrimento que vem tendo. O resultado será “séculos dos séculos” de regozijo no paraíso com Deus.

Crente, una-se ao apóstolo Paulo e ore com convicção: “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos a desgastar-nos, interiormente estamos sendo renovados dia após dia, pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno” (2Co 4.16-18).

Leandro Boer

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Você Frequenta a Escola Bíblica Dominical?

Certa vez, um pastor da Igreja Metodista de Atlanta – Estados Unidos, chamado Pierce Harris, foi pregar em um presídio. Conta ele que lá estavam vários homens, todos com a mesma roupa, sentados em um pátio enquanto aguardavam o início do culto. Um dos internos, que estava posicionado à parte dos outros a fim de apresentar o pregador, dirigiu-se aos seus colegas dizendo: “Muitos anos atrás, dois garotos viviam na mesma comunidade no norte da Georgia. Eles frequentaram a mesma escola, brincaram com os mesmos colegas e iam à mesma escola bíblica dominical. Um deles abandonou a escola dominical porque sentiu que ‘já tinha passado dessa fase’. O outro garoto permaneceu frequentando-a, pois realmente acreditava nela. O garoto que deixou de ir à escola dominical é este que hoje faz essa apresentação. O garoto que continuou a ir é o distinto pregador dessa manhã”.

Eu sei que muitos que agora leem este texto, já imaginando aonde ele vai chegar, estão pensando: “Essa história não quer dizer nada. Não é a frequência ou não à escola bíblica dominical (EBD) que define o que a pessoa vai ser na vida”. Para esses eu diria: “Talvez sim, talvez não”. De fato, a história das pessoas se baseia em muito mais coisas e circunstâncias do que um fator somente. Não dá para olhar para o menino sentado na carteira da escola dominical, e até os mais velhos assentados nos bancos da igreja, com o material em mãos, e lhes prever o futuro. Entretanto, é possível dar um bom palpite. Isso, porque a frequência à EBD é, em si mesma, uma “causa” e um “efeito”.

Como “causa”, ela produz nos crentes que dela participam um conhecimento mais profundo das Escrituras. Paulo, olhando para as necessidades do jovem Timóteo, orienta-o: “Até à minha chegada, aplica-te à leitura [das Escrituras – inclusão minha]” (1Tm 4.13a). Em relação aos jovens da igreja, Paulo ordena a Tito que lhes dê instrução: “Quanto aos moços, de igual modo, exorta-os para que, em todas as coisas, sejam criteriosos” (Tt 2.6), além de o salmista ressaltar a importância da Palavra na luta contra o mal: “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua Palavra” (Sl 119.9).

Quanto à criança, a Palavra de Deus indica que devem ser insistentemente educadas no caminho da justiça e da verdade: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (Dt 6.6,7), e “ensina a criança no caminho em que deve andar e, ainda quando for velho, não se desviará dele” (Pv 22.6). É certo que tais cuidados não são exclusivos do ambiente eclesiástico – e nem devem ser – mas a EBD se presta a tanto e é um complemento fundamental para aqueles que, em casa, na escola e no trabalho, dedicam-se a aprender a Palavra de Deus e ensinar seus filhos.

Como “efeito”, o interesse pela EBD e por aquilo que ela tem a oferecer parte de corações desejosos de passar por um crescimento espiritual, de ter comunhão com Deus e de participar mais efetivamente da obra do nosso Senhor Jesus Cristo. Tenho visto, ao longo dos anos, muita gente desinteressada pela Palavra e inerte na vida da Igreja de Cristo presentes nos cultos da noite, perdidas no meio daqueles que sabem, de fato, o porquê de estarem ali. Entretanto, não costumo vê-los na escola bíblica dominical.
Não esquecendo de fazer justiça àqueles que “realmente” são impedidos de frequentar a EBD, nela normalmente se encontram cristãos sérios que querem que suas vidas sejam moldadas pelo Senhor a partir da renovação da sua mente (Rm 12.1,2). São também aqueles que não desperdiçam as oportunidades de estar com os irmãos e, principalmente, cultuar o Senhor (Hb 10.25). Esses são aqueles que, mesmo no culto da noite, participam integralmente cantando, orando e prestando a máxima atenção à pregação, enquanto outros, por vezes, nem sabem dizer o assunto ou o texto central do sermão.

Portanto, não é sem motivo que me preocupo com as pessoas que não vejo nos domingos de manhã. Elas são, no mínimo, pessoas que, por um lado, não dão prioridade a Deus e, por outro, não estão sendo suficientemente alimentadas.

Pense nisso! Nem todos aqueles que buscam modicamente o aprendizado da Bíblia e a comunhão e proteção da igreja irão parar na prisão. Mas, certamente, muito poucos desses – ou nenhum deles – serão pessoas que irão transformar, de algum modo, pela Palavra e pelo procedimento, o meio em que vivem.

Pr. Thomas Tronco